Terça-feira, 27 de Fevereiro de 2007

As personagens - O Avô

 

Imagem original de "PlanetLove" - em FLickr - http://www.flickr.com/photos/planetlove/159677380/O Avó é o patriarca da família. É a voz de comando, o que controla, domina e determina o que todos os que o rodeiam devem fazer.
É um velho imóvel, incapaz de realizar as mais pequenas tarefas, mas que vai obrigando a que os outros cumpram os seus desejos.
«O avô falava mas não se erguia do assento nem para alcançar um púcaro de água.» (18)
 
Afirma a sua autoridade numa sociedade submissa onde ninguém é capaz (ou quer) pôr em causa a sua ascendência.
«E nesse ambiente de meninos e mulheres, exercendo o seu magistério de homem director, inválido, sentado na sua cadeira de imóvel, desesperava o meu avô.» (15)
Sente-se desesperado perante a sua invalidez e a falta de um sucessor que mantenha a sua linhagem autoritária, machista e materialista. Perante a ausência de todos os filhos varões, vê como uma única alternativa – como o menor dos males – o seu filho mais novo: o tio Fernando.
«A menos que chamasse o filho mais novo, aquele que depois para sua arrelia, haveria de riscar a poeira das estradas, a correr, a correr na Instrumentalina.» (15)
Quando chama o seu filho Fernando para lhe entregar os destinos da casa, enumera de forma hierárquica as suas preocupações e a sua ordenação de valores.
«Porque Deus quis que fosses tu o amparo do Pai, da sua saúde e dos seus haveres, bem como destas crianças e destas mulheres que os outros para aqui deixaram…» (16)
Primeiro está ele próprio, depois a sua saúde e os seus haveres. Os outros, os que restam depois dele, são enumerados no fim e quase como se tratassem de “acrescentos”, de “extras” que não sendo realmente importantes, seriam de proteger por compaixão.
E nesta ânsia de se proteger a si e aos seus possuídos (bens ou pessoas) não olha a meios para atingir os objectivos.
Mente:
«E sabes que se quer ir embora?» (27)
Tenta subornar:
«O Avô tinha retirado do interior do seu colete uma pataca de veludo e de dentro dela fizera sair uma pequena moeda cor de oiro, colocando-ma na mão – “É tua, se me quiseres ajudar, fazendo desaparecer a Instrumentalina”.» (27-28)

Imagem original de Joe Cool em FlickR - http://www.flickr.com/photos/fusebox/210469513/

Delineia planos (subornos) alternativos:
«Era verdadeiro então o pressentimento que me dominava de que aquelas mulheres vinham substituir o plano do desaparecimento da Instrumentalina.» (31)
Incapaz de ver a realidade e de perceber as mudanças que o mundo trazia, encontra um único culpado, e condena-o sem julgamento e sem piedade.
«Para o seu sogro comum, porém, só havia um culpado da vasta ruína humana que chegava – o seu filho Fernando, o indiferente a terras e mulheres, o prisioneiro da Instrumentalina.» (34)
E é também incapaz de discernir o simbolismo da “Instrumentalina”, convencendo-se que fazendo-a desaparecer, faria desaparecer do seu filho as ideias “revolucionárias”.
«Porque devemos impedir que ele se vá, fazendo-a desaparecer.» (28)
Imagem original de Ross Stuart Hendersom (Flickr) - http://www.flickr.com/photos/51501783@N00/319344188/O avô nunca chegou a ter a clarividência da menina, deixando-se guiar pela cegueira do seu ressentimento, do seu desespero, da sua impotência.
«Não era verdade que o avô me tinha dito que o desaparecimento da bicicleta poderia prendê-lo a casa? E como? Na minha ideia, a Instrumentalina em vez de o afastar ligava-o a nós como nenhum outro objecto. O raciocínio do avô parecia-me não ter lógica e no fundo da minha agitação, tudo se resumiria a uma vingança de pessoa ressentida. Pelo contrário, era preciso prendê-lo à estrada, devolvendo-lhe a Instrumentalina.» (35)
No final do conto, quando é descoberta a Instrumentalina no fundo da nora, o avô parece rendido, incapaz de continuar a lutar, indiferente já ao que o rodeava.
«… mas depois eu insisti e todos nos dirigimos para a nora, sob o olhar indiferente do meu avô.» (35)


O Avô
Publicado por Marta às 10:00

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Domingo, 25 de Fevereiro de 2007

As personagens - O tio Fernando

 

O mesmo trabalho depois de corrigido e melhorado:
 
Era o filho mais novo do avô. Ainda não tinha 20 anos.
«Nem sequer fez ainda 20 anos.» (37)
O único que não se tinha ausentado para longe. Era um jovem sonhador, despreocupado, amando acima de tudo a sua bicicleta de corrida, a sua Kodak de fole e sua a máquina de escrever. É o ídolo das crianças. Revela-se o oposto daquilo que o seu pai desejava que fosse.
 
Era a última esperança do seu pai.
«A menos que chamasse o filho mais novo, aquele que depois para sua arrelia, haveria de riscar a poeira das estradas, a correr, a correr na Instrumentalina.» (15)
É o eleito (por ser o único) para preservar o reino daquela casa rural. É o “escolhido”, mesmo que não seja o “desejado”. E é empurrado para uma função que não deseja e não sabe cumprir.
«Repara bem. Chegou a hora de mudares de vida. Olha à tua volta e o que vês? Crianças e mulheres. Ora se todos me abandonaram, menos tu, então a minha velhice pertence-te e esta casa é tua…» (15)
Mas na sua essência é um “bom vivant”, um sonhador, um artista amador.
«O meu tio, fotógrafo amador e corredor de bicicletas…» (16)
É o oposto completo do seu pai (o avô). É o amante da “poesis” enquanto o avô era o seguidor da “praxis”. É o irrequieto, o activo, o móvel, enquanto o avô era o parado, o inválido o imóvel.
«Mas não era a pessoa que o nosso avô tinha querido que viesse.» (16)
Foto orignal em FlickREsta oposição inconciliável entre as duas figuras masculinas ganha corpo na relação que estabelecem com as cadeiras. O tio Fernando nunca se sentava.
«Como se nunca sentasse, o tio Fernando ouvia distraído, montado na bicicleta…» (16)
O avô estava preso a uma cadeira.
«O avô falava mas não se erguia do assento nem para alcançar um púcaro de água.» (18)
O tio Fernando não se enquadrava com as exigências da direcção de uma casa agrícola…
«Os carros de animais partiam carregados de objectos e de homens, e ele, como se nada lhe pertencesse, saía antes ou depois, com o boné virado para trás, sentado na bicicleta corredora, estrada fora.» (16)
… fazendo prevalecer os cuidados com a sua bicicleta sobre as obrigações ou os cuidados comerciais.
«Quando partiam para locais onde não era possível chegar desse modo, recusava-se a sair, sob o pretexto de que descalibrava as rodas nas irregularidades do caminho.» (16-17)
E esta desadaptação, esta incompatibilidade entre a sua forma de ser e o que lhe era pedido é claramente realçada pelas três vezes que o tio revela não compreender a sua escolha para aquela missão.
«Eu, Pai, mas porquê eu?» (16)
«Mas porquê eu, meu Pai? Porquê» (16)
«Meu Deus, mas porquê eu, Pai? Porquê» (33)
Este tio que vivia agarrado à sua liberdade, aos seus sonhos, estranhamente, não se tinha ido embora para longe, como os seus irmãos. Mas corporizava essa evasão que lhe era inata nos muitos “instrumentos” que possuía. É muito curiosa e significativa a brevíssima imagem que temos do seu quarto.
«… resplandeciam na penumbra do seu quarto repleto de instrumentos.» (26-27)
Foto original em FlickREle era o ídolo das crianças. Diverti-as, mimava-as e fazia-as sonhar.
«Víamo-lo de longe, com o seu boné de riscas, seu suspensório traçado, as calças apanhadas ao lado por presilhas…» (13)
«E não contente com a velocidade, fazia piruetas, cavalinhos, andava de um só lado como em patim, criava pinos e simulava quedas das quais saía ileso como nos circos os acrobatas. Vendo-o em tão boa forma, o nosso delírio não tinha piedade por ninguém, nem tinha fim.» (34)
E dividia a existência da “matilha indomável” em duas partes opostas.
Uma parte que se adivinha mais triste, mais sombria, limitada nas brincadeiras e nos sonhos pelo espaço da “casa da campina” e do seu portão.
Outra parte, cheia de som, luz, alegria e sonho que durava enquanto ele estivesse junto das crianças.
«… e os nossos gritos partiam a tarde em duas metades substanciais como as de um fruto ­– Antes e depois da chegada do nosso querido tio.» (13)
«De qualquer modo, quando o víamos regressar de novo, atrás das árvores, a luz renascia na tarde a campina.» (19)
De tal forma que as crianças o amavam. Amavam-no a ele e a tudo o que nele simbolizava a liberdade, o sonho, a evasão daqueles “campos de calor e de poeira” (10).
«Amávamo-lo, disputávamo-lo, fazendo parte dele, como seu segundo corpo, a Instrumentalina» (19)
Quando a Instrumentalina desaparece, o tio fica imóvel, parado, como se desistisse da vida e não encontrasse outro motivo para continuar a respirar.
«O tio havia-se deitado no divã do corredor, de olhos abertos, sem pestanejar…» (34)
Mas a mágoa da perda do seu instrumento de liberdade é ainda suplantado pelo desgosto de se saber traído pelos seus.
«Mas o seu desgosto foi sobretudo intenso quando percebeu que as suas quatro cunhadas, dois dias antes, haviam recebido cada uma delas sua meia-libra de oiro.» (36)
E apesar de ainda ter vivido mais algum tempo na casa, imitando um apaziguamento que era apenas fictício e conveniente aos seus planos, acaba por desaparecer numa madrugada, acompanhado por um amigo e por aquela que o tinha compreendido e amado – a menina.
«Era de facto madrugada. O comboio apareceu com o seu olho grande, fazendo estremecer a linha da estação. O tio levava uma pequena mala e deu um abraço demorado ao seu amigo. Depois elevou-me nos seis braços de rapaz e apertou-me de concontro ao peito, durante um instante. Passaou a mão pelos meus pés descalços. “Volto logo, miúda. Vou e volto. Logo, logo.”» (39)
Após a sua partida, a memória daquele tio tinha-se idolatrado. E da mesma maneira que o desaparecimento da Instrumentalina não tinha sido capaz de terminar com o sonho de liberdade, também a ausência do tio não fora capaz de trazer o esquecimento. Antes pelo contrário, a ausência de notícias e o desconhecimento do seu percurso, mitificavam-no.
«O nosso tio fora-se transformando assim numa figura dispersa pela Terra como um espírito.» (39)
«Acaso o dono da Instrumentalina não teria sido um sonho destinado apenas a fazer crescer pessoas indefesas?» (40-41)
Mas é este tio que de tudo o que existiu alguma vez na casa da campina sobrevive (juntamente com a menina) a 30 anos e aparece agora como um cavalheiro de meia idade, triunfante sobre a vida.
«Ele ali estava. Devagar, um cavalheiro de meia idade atrás do vidro transparente retirava o seu abafo, dobrava-o, entregava-o com as luvas, e abrindo a porta, como quem acaba de correr numa bicicleta, poisava o seu olhar mediterrânico na minha mesa.» (41)


O tio Fernando #2
Publicado por Adriana às 14:05

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Sexta-feira, 23 de Fevereiro de 2007

As personagens - A Instrumentalina

A Instrumentalina #2

Uma outra forma de caracterizar esta personagem...

Fotografia original de Mister Dillon

 
A Instrumentalina é uma bicicleta (a bicicleta do tio Fernando) e é o «transporte de delícia».
«Quem diria? Escondida no saco das reservas proibidas, havia anos e anos que não a soltava do seu lugar de abrigo, ainda que por vezes o seu selim, a sua roda pedaleira, ou a imagem caprina do seu retorcido guiador me aparecessem como coisas desgarradas. Era inevitável. Quem uma vez percorreu os caminhos do paraíso num transporte de delícia, jamais pode esquecer a imagem do objecto condutor.» (10)
Mais do que um objecto, a Instrumentalina é um símbolo. O símbolo da liberdade, do prazer, da autonomia, da autodeterminação das personagens. É o «objecto condutor» (10) do sonho.
«Mas o nosso tio era diferente, pois podia fugir de tudo e de todos, correndo pelas estradas, e por vezes levando-nos consigo. Por isso éramos livres. […] Amávamo-lo, disputávamo-lo, fazendo parte dele, como seu segundo corpo, a Instrumentalina.» (19)
Ela é o instrumento usado para conservar o sonho. E é por isso que tem o nome de “Instrumentalina” – porque é o instrumento!
«A princípio tinha-lhe chamado figa, e depois trambolho e oito do Inferno, para em seguida se fixar naquele nome estranho, parente degenerado de utensílio, pelo qual nutria um despeito de ácido.» (17)
E enquanto símbolo dessa liberdade ela é amada sobre todas as coisas
«… e esse tio amava acima de tudo a sua bicicleta de corrida.» (18)
Mas é também profundamente odiada.
«Mas o seu ódio, seu profundo rancor, ele o reservava intacto para a bicicleta marca Deka, insultando-a em grandes gritos de “Instrumentalina”.» (17)
«Porque devemos impedir que ele se vá, fazendo-a desaparecer.» (28)
E esta tentativa de fazer com que a bicicleta deixe de ser uma bicicleta acaba por se revelar muito interessante.
O avô, ao insultá-la com o nome “Instrumentalina”, tenta, no fundo, coisificá-la, torná-la “coisa” e retirar-lhe a dignidade de bicicleta. Ao deixar de ser uma bicicleta como as outras (um objecto útil, reconhecido) e ao ser tratada como “maldito instrumento”, o avô tenta rebaixar a aquela bicicleta ao mais vulgar, ao mais baixo degrau dos objectos manipulados pelos humanos.
«Retirem-me da vista esse maldito instrumento! Levem-me da vista a Instrumentaliiina!» (17)
Mas curiosamente, esse processo de retirar àquela bicicleta o “estatuto” de mera bicicleta vai revelar-se com resultados opostos junto das crianças. Para elas (como para o tio Fernando) aquela não é apenas uma bicicleta como as outras. É um objecto especial, uma “coisa” do reino do fantástico. E a bicicleta vai também ser coisificada pelas crianças, mas no sentido inverso. Elas vão atribuindo-lhe uma aura de magia que a faz deixar de ser uma bicicleta e a faz passar a ser mais do que uma bicicleta; passa a ser um objecto quase sagrado e venerado.
«… querendo ser cada um de nós a amparar a Instrumentalina até ao canto do quarto onde o objecto corredor passava a noite…» (17)
«Por ironia, a designação que o nosso avô lhe havia atribuído com chancela de ódio soava-nos a um nome da família, e gastávamo-lo de tanto o repetir.» (18)
Aliás, parece-nos que a Instrumentalina é, ela mesma, uma personagem do conto.
Aquela bicicleta tem nome próprio, é quase sempre referida pelo seu nome e o nome é sempre maiúsculado.
A Instrumentalina parece também ter vontade própria e capacidade de ser o sujeito de acções.
«A bicicleta longínqua aparecia de perfil, mostrava o brilho dos seus raios girando ao sol, e uma outra luminosidade da Terra aparecia.» (11)
«... a triste parecia um ser humano...» (36)
E é enquanto símbolo e personagem que esta bicicleta se intromete na história narrada e obriga por diversas vezes a acção a alterar o rumo previsto e pré-definido.
Talvez que um dos melhores exemplos seja o dia do rompimento do noivado entre o tio Fernando e a “rapariga sem anel”.
Numa tentativa desesperada de salvar a casa e os haveres, o avô “arranja” um casamento para o tio Fernando. O noivado arrasta-se penosamente, sem qualquer demonstração de interesse por parte do tio. A determinado momento, o pai da rapariga vem tomar satisfações quanto às intenções reais do “noivo”. E como se de uma outra mulher se tratasse, a Instrumentalina surge no cenário daquele acerto de responsabilidades, afastando definitivamente o tio Fernando da rival, como se fosse ela a responsável última pelo fracasso daquela empresa matrimonial.
«Ali estavam finalmente para ouvirem da boca do Fernando o que queria, se queria e quando queria. A sua filha mais velha era uma herdeira, não era um trapo. E se de facto haviam combinado para ele a doação de um triplo dote, existiam limites para a dignidade e a paciência. O tio, porém, nessa tarde, a braços com um arranjo na Instrumentalina, apareceu de mãos cheias de sebo como os mecânicos, completamente estranho ao estratagema.» (32-33)
Como se ela fosse a carcereira da única esperança de manutenção do estado das coisas.
«Para o seu sogro comum [o avô], porém, só havia um ser culpado da vasta ruína humana que chegava ­– seu filho Fernando, o indiferente a terras e mulheres, o prisioneiro da Instrumentalina.» (34)
Bicileta no fundo da nora
E esta "personagem-instrumento" vai conseguir sobreviver ao ataque último do avô que ordena (compra) o seu desaparecimento no fundo de uma nora. Mas, se por momentos, somos levados a acreditar que a "personagem morreu"...
«Partida, convertida num monte de sucata, a triste parecia um ser humano de pescoço torcido sobre as ervas.» (36)
logo nos apercebemos que a sua força, o seu simbolismo ultrapassa e permanece para além do tempo.
«No entanto, passados tantos anos, reunida, como se pudesse ter-se mantido unificada pelo tempo, visitava-me rodando sobre o gelo como antigamente acontecia, nos campos de calor e poeira.» (10)
Publicado por Marta às 14:47

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As personagens - A Instrumentalina

A Instrumentalina - #1

Neste conto (A Instrumentalina) as personagens são poucas, em quantidade, no entanto, são todas elas muito ricas, em qualidade, nas emoções, nos sentimentos e nos ideais que transmitem. Escolhi, A Instrumentalina, por ser, não apenas um objecto – uma simples bicicleta de corrida – mas por se revelar, do meu ponto de vista, como a personagem principal da história e a que contém a maior simbologia em termos de mensagem.
 
A Instrumentalina
 
No conto, a Instrumentalina não é apenas uma bicicleta.
A Instrumentalina é um objecto que ganha a dimensão de uma personagem.
 
Tem nome:
“Tanto o meu tio, como a Instrumentalina e eu”.
 
É amada e odiada, como se de uma pessoa se tratasse.
 
É amada pelo tio:
“Fernando, o prisioneiro da Instrumentalina”
“Fazer desaparecer a bicicleta do tio parecia-me uma monstruosidade semelhante a fazer adoecer ou matar o próprio tio”
 
É, também, amada por todos os sobrinhos:
“As cenas da escolha do que seria contemplado com uma volta, sentado na grelha que naquele tempo as bicicletas de corrida ainda consentiam, roçava o furor religioso.”
 “… querendo ser cada um de nós a amparar a Instrumentalina até ao canto do quarto onde o objecto corredor passava a noite”.
 
É odiada pelo avô:
“Os gritos do nosso avô imóvel ouviam-se à distância, e por eles se percebia como odiava o velocípede. Também odiava a Kodak, com o seu fole, e a máquina de escrever onde o nosso tio de olhos fechados fazia questão de compor o nosso nome. Mas o seu ódio, o seu fundo rancor, ele reservava-o intacto para a bicicleta marca Deka, insultando-a em grandes gritos de «Instrumentalina». A princípio tinha-lhe chamado figa, e depois trambolho e oito do Inferno, para em seguida se fixar naquele nome estranho, parente degenerado de utensílio pelo qual nutria um despeito de ácido.» 
A Instrumentalina tinha o poder de unir ainda mais o tio à família «Na minha ideia, a Instrumentalina em vez de o afastar ligava-o a nós como nenhum outro objecto», apesar de nem o avô nem as mulheres o perceberem.
 
A Instrumentalina é também um símbolo. Um símbolo para todas as outras personagens que são instrumentos do sonho, da liberdade, do que fica mais além. O avô não percebeu que o «instrumento» representava a necessidade e a urgência, a vontade e o apelo de ser livre.
«Mas o nosso tio era diferente, pois podia fugir de tudo e todos, correndo pelas estradas, e por vezes, levando-nos consigo. Por isso éramos livres.»
“Quem uma vez percorreu os caminhos do Paraíso, sentado num transporte de delícia, jamais pode esquecer a imagem do objecto condutor.”
O importante não é a bicicleta, mas o que ela significa para as crianças, para o tio Fernando e para o avô.

Fotografia original de Joa em FlickR - http://www.flickr.com/photos/joa/254749940/

 
À Instrumentalina está reservado um fim trágico, ela “morre” afundada no fundo de uma nora.
“… até que, escorrendo limos e panos podres, a bicicleta foi içada como um náufrago. Partida, convertida num monte de sucata, a triste parecia um ser humano de pescoço torcido sobre as ervas.”
A mando do avô que, por meia libra de oiro, convenceu as noras a fazer desaparecer a bicicleta.
 
No entanto, só o objecto se danifica, pois a “personagem” que está por detrás do objecto mantém-se até ao final e vive, para sempre, na memória de todos os outros intervenientes.
“No entanto, passados tantos anos, reunida, se pudesse ter-se mantido unificada pelo tempo, visitava-me rodando sobre o gelo como antigamente acontecia, nos campos de calor e poeira.”
“A porta de vidro permitia que dali onde me encontrava pudesse ver quem saia e quem entrava, sobretudo quem deixava o chapéu e a gabardina no bengaleiro. A bicicleta longínqua aparecia de perfil, mostrava o brilho dos seus raios girando ao Sol, e um luminosidade da Terra aparecia.”
Não “morreu” a personagem nem o seu simbolismo, mas apenas o instrumento. Nessa altura ela já não era necessária, pois o desejo da liberdade, maioridade e autonomia já tinha sido conquistado. O avô apenas precipitou o desenlace da história.
Publicado por Marta às 14:33

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Terça-feira, 6 de Fevereiro de 2007

Marta Sofia Cesário Marques

Chamo-me Marta, tenho 12 anos e sou filha única.

Sou escuteira e gosto muito de o ser.

Sou doida pelo Sporting. Como hobbies gosto muito de ler, ver TV (CSI e Sem Rasto, são alguns dos meus programas preferidos), ir ao cinema e ao teatro, de ouvir música, navegar na Net e adoro viajar.

O Verão é a minha estação preferida, principalmente por causa da praia.

Tenho uma cadela que cresceu comigo e que me faz companhia.

A minha melhor amiga é a Andreia Caetano - que conheço desde sempre.

Sou divertida, brincalhona, algo tímida e muuuuuito teimosa.

Sonho em ver o meu Sporting consagrar-se campeão e "vejo-me", no futuro, como pediatra.

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