Segunda-feira, 5 de Março de 2007

Finalmente...

E finalmente chegámos ao fim...

Chegámos ao fim do concurso Sapo Challenge 2007, mas não chegámos ao fim do Blog "A Instrumentalina".

Percebemos, ao longo destas semanas, que afinal o conto de Lídia Jorge era muito mais bonito do que imaginámos inicialmente, constatámos que havia pouca informação sobre este conto disponível para quem pesquisar na web e verificámos que há muitos outros internautas interessados em nos ler e em consultar a informação que disponibilizámos.

Por isso é que só o concurso Sapo Challenge é que acabou. O nosso "blog" não vai acabar e temos já (apesar de fora de concurso) outros materiais para disponibilizar aqui.

Foi uma experiência que se tornou em paixão. Como se diz no conto:

"Quem uma vez percorreu os caminhos do paraíso, sentado num transporte de delícia, jamais pode esquecer a imagem do objecto condutor."

Hoje, para concluir, publicamos quatro (dos  5) vídeos que fizemos e que correspondem a excertos por nós escolhidos do conto.

A intenção?

Mostrar que quando nos deixamos envolver e mergulhar no conto, há pequenos bocadinhos de texto que se podem tornar em delícias, em iguarias, em verdadeiro prazer.

Tudo o que pretendemos é despertar em quem nos vir uma vontade de ler este conto.

Temos que deixar aqui expresso o nosso agradecimento ao "Cinema'scola" da ESSMO e um muito obrigado ao prof. José Morgado e ao nosso colega José Ricardo.

 


Vídeo 1

 

«Quem diria? Escondida no saco das reservas proibidas, havia anos e anos que não a soltava do seu lugar de abrigo, ainda que por vezes o seu selim, a sua roda pedaleira, ou a imagem caprina do seu retorcido guiador me aparecessem como coisas desgarradas. Era inevitável. Quem uma vez percorreu os caminhos do paraíso num transporte de delícia, jamais pode esquecer a imagem do objecto condutor.
[…]
Ora a Instrumentalina se me tinha levado até ao campo das margaridas, no dia em que meu tio Fernando me havia chamado Greta Garbo, ela mesma me tinha traído e amarrotado, e criado o meu primeiro desgosto. No entanto, passados tantos anos, reunida, como se pudesse ter-se mantido unificada pelo tempo, visitava-me rodando sobre o gelo como antigamente, nos campos de calor e de poeira.»
JORGE, Lídia, A Instrumentalina, Ed. D. Quixote, 1ª edição, 1992, pp. 10

 

 


 

Vídeo 2

 

 

[...]

 

Com as mãos agarradas à cintura dele, tombando para a direita e para a esquerda como sobre um cavalinho que voasse, corríamos e corríamos sem parar. Correndo, sentia as pernas do meu tio girarem, e a sua camisa encher de ar, à medida que corríamos. E a terra a mover-se e a passar. Mas até onde correríamos nós? Acaso poderíamos correr indefinidamente assim? Se não, porque não?”

 

JORGE, Lídia, A Instrumentalina, Ed. D. Quixote, 1ª edição, 1992, pp. 22


 

Vídeo 3

«O meu tio retirou a máquina fotográfica do seu estojo, fez experiências contra o sol, fechou os olhos, tapou os olhos com a pala do boné, andou às arrecuas, para os lados, ajoelhou, e depois finalmente, mandou-me que o olhasse.
“Mas antes colhe um ramo de margaridas!”
Colhi-as, fiz um ramo, olhei para ele contra o sol, de lado, sentada no meio das flores, de perto, de longe, com e sem chapéu, e quando cheia de soberba por me sentir rainha, olhei de três quartos, com a boca unida, cheia de silêncio, meu tio gritou.
“Isso, isso, não te mexas, Greta Garbo!”
E depois, meu tio, que só tinha doze chapas, disparou as seis que lhe restavam.»
JORGE, Lídia, A Instrumentalina, Ed. D. Quixote, 1ª edição, 1992, pp. 24-25

 


Vídeo 4

«Era de facto madrugada. O comboio apareceu com o seu olho grande, fazendo estremecer a linha da estação. O tio levava uma pequena mala e deu um abraço demorado ao seu amigo. Depois elevou-me nos seus braços de rapaz e apertou-me de encontro ao peito, durante um instante. Passou a mão pelos meus pés descalços. “Volto logo, miúda. Vou e volto. Logo, logo.”
Mas seria mentira, absoluta mentira o que o meu tio dizia.
O antigo dono da Instrumentalina tinha subido os três degraus do comboio, havia entrado, e depois, acenando, acenando sempre, desaparecera no perfil da carruagem. Assim desaparecera.»
JORGE, Lídia, A Instrumentalina, Ed. D. Quixote, 1ª edição, 1992, pp. 39

 


Vídeo 5

«Era a hora exacta, marcada no final das duas linhas deixadas por ele no cacifo, e a sala estava cheia de gente loira como palha, derretendo ao calor da lareira, a alegria contida pelo gelo. Uma coisa fria como se o meu coração se dirigisse não para um homem mas para um lago, empurrava-me a vista na direcção do bengaleiro. Preparava-me para um encontro singular como nunca havia imaginado ser possível. Ele ali estava. Devagar, um cavalheiro de meia idade atrás do vidro transparente retirava o seu abafo, dobrava-o, entregava-o com as luvas, e abrindo a porta, como quem acaba de correr numa bicicleta, poisava o seu olhar mediterrânico na minha mesa.
“Cresceste, miúda, cresceste. Mas a tua cara é ainda a mesma…”
Conseguiu por fim o tio dizer, duma só vez.»
JORGE, Lídia, A Instrumentalina, Ed. D. Quixote, 1ª edição, 1992, pp. 41

 

Domingo, 4 de Março de 2007

O Simbolismo

Ao abrirmos o livro “A Instrumentalina” deparámo-nos com um brevíssima citação que nos levantou algumas dúvidas.
«Um conto breve faz um sonho longo»
A referência à brevidade do conto é óbvia. “A Instrumentalina” é um texto breve, de pouco mais de 30 páginas, que se lê de uma vez só.
Mas aquele “sonho longo” fez-nos algum mistério…
 
Mas depois de lermos todo o conto, e quando o discutimos em equipa, quando trocámos ideias e emoções sobre o que tínhamos lido, começámos a perceber que aquele flashback (a nossa professora de Português quer a toda a força que lhe chamemos “analepese”) tinha algo de sonho (de “onírico”, diz a professora…) e que para além de “saber” a sonho, parecia falar de um sonho, de um “sonho longo”.
 
As minhas colegas foram analisar as personagens, o tempo e o espaço, mas a mim calhou-me estudar o que havia de sonho n’ “A Instrumentalina” e o que havia de simbólico nesta história.
Na biblioteca, pedi o “Dicionário dos Símbolos” e fui à procura. Encontrei:
 
Bicicleta – A bicicleta aparece frequentemente nos sonhos do imaginário moderno. Evoca três características:
* meio de transporte movido pela pessoa que a usa, ao contrário dos outros veículos, que são movidos por uma força exterior. O esforço pessoal e individual afirma-se, com a exclusão de qualquer outra energia, para determinar o movimento para a frente;
* o equilíbrio é assegurado pelo movimento para a frente, exactamente como na evolução da vida exterior ou interior
* só uma única pessoa de cada vez pode montar nela. Esta pessoa faz, portanto, de cavaleiro solitário (a bicicleta de dois assentos é outra história)
Como o veículo simboliza a evolução em marcha, o sonhador monta no seu inconsciente e avança pelos seus próprio meios, em vez de se descontrolar por estagnação, neurose ou infantilismo. Pode contar consigo mesmo e assumir a sua independência. Assume a personalidade que lhe é própria, não estando subordinado a minguem para ir aonde quiser.
Nos sonhos a bicicleta raramente indica uma solidão psicológica ou real, por excesso de introversão, egocentrismo e individualismo que impeça a integração social: corresponde a uma necessidade normal de autonomia.
in CHEVALIER, Jean, GHEERBRANT, Jean, Dicionário dos Símbolos, Ed. Teorema, Lisboa, 1982
 

Imagem original de "mliebenberg" - http://www.flickr.com/photos/mliebenberg/202934077/

Parecia óbvio que aquela “Instrumentalina”, a bicicleta que tinha dado o nome ao conto, era uma das chaves da interpretação de todo o conto. E que se chamava “Instrumentalina” por ser o instrumento desse mesmo sonho, dessa vontade de seguir em frente ainda que sozinho e ainda à própria custa.
 
Mas foi só quando li o artigo de Ana Paula Ferreira (transcrito neste blog) e depois de ter conversado com a nossa professora de português e com a minha mãe (que me tem acompanhado desde o princípio nesta “aventura”) que o simbolismo deste conto ganhou sentido completo para mim.
 
É sobre isso que vou escrever.
 
O simbolismo do espaço.
O conto divide-se em dois espaços que correspondem a dois tempos.
 
A cidade de Toronto:
 
É o espaço da actualidade é o símbolo do progresso e da frieza racional, também de alguma decadência civilizacional mas apesar de tudo suficientemente transparente para deixar ver a Instrumentalina.
«Então, subitamente, aquela cidade estendida e empinada à beira do Lago Ontário […] ainda tinha palhetas de gelo.» (9-10)
«O bar do Royal York Hotel, alimentado às sextas-feiras por bêbados distintos caindo sobre as mesas muito antes da meia-noite […] mas não suficientemente opaco para não deixar que a Instrumentalina deslizasse sobre a estrada dum outro território. […] A porta de vidro permitia que dali […] pudesse ver quem saía e quem entrava.» (11)
Trata-se claramente de um espaço distinto e afastado da terra de calor e poeira.
«… e agora, ressuscitando numa cidade tão longe da terra da poeira…» (40)
 
As terras da campina:
 
Este é o espaço onde decorre a acção nuclear do conto. É uma planície não identificada, claramente rural, sobretudo campestre, que fica algures a Sul e que simboliza o estado de um todo um país.
«Completamente plana, essa nesga de campina ao sul do meu país onde a casa do meu avô se erguia…» (13)
E nestas terras da campina, distinguem-se por sua vez outros dois espaços que partilham a campina, têm fronteiras comuns, mas que são absolutamente opostas quer na descrição quer no simbolismo.
 
 
A casa do Avô:
 
Fotografia original de "FlyZipper" - http://www.flickr.com/photos/good_day/219333127/A casa do Avô é o símbolo do Portugal antes da revolução de 74. É um espaço sombrio, poeirento, cheio de venenos e asfixia, fechado da campina por um portão, habitado por traições e estratagemas de engano, imóvel, resistente às mudanças e é uma casa em absoluta decadência, sem futuro, sem esperança, sem sonho.
«… indiferente então à mudança que corria nos países e nas terras…» (12)
«Três fogões a petróleo enchendo a sopa de veneno… » (12)
«… tínhamos ocupado o quarto da abóboda, o que dava para trás, o mais sombrio. […] duma casa grande demais para se viver» (15)
«A sua imobilidade possuía alguma coisa de fatal que enchia a casa, conferindo-lhe uma sombra de prisão.» (18)
«Mas de que modo dizer isso ao tio Fernando, se ele me levava de volta exactamente para a sombra das parreiras, como se fosse um destino inevitável?» (25)
«De facto, descomandada, a casa ruía como baralho que se dispersasse, diminuindo as vendas, aumentando as compras, morrendo animais de tiro que não havia mais para substituir com a mesma qualidade. Os seirões de trigo tinham-se enchido de gorgulho, e nas redondezas as moagens fechavam como se estivessem combinadas. Os jornaleiros já não trabalhavam de sol a sol, e por isso o rendimento era escasso, além de que a maior parte deles também estava sucumbindo às miragens da partida.» (33)
Trata-se, claramente, da representação de Portugal subjugado pela ditadura do “Estado Novo”, oprimido, sem perspectivas de futuro e em clara decadência social e económica.
 
Por outro lado, ainda nessa “nesga de campina”, podemos encontrar o:
 
 
Campo das margaridas
 
Este espaço aberto, afastado da casa do avô, é o símbolo de um outro país, mais verde, com esperança, com diversidade, mas que aparece no conto apenas de forma transitória, efémera, quase escondido, conhecido apenas por alguns e trata-se de um espaço evidentemente inabitado e onde se pode permanecer apenas por alguns instantes.
«De repente, a terra plana ganhava um declive, uma mancha de verdura era mais intensa […]» (24)
«O cômoro que se elevava depois da depressão não era só verde, não. A seguir a umas ervas densas, a cor da relva dava lugar ao branco eo branco ao amarelo, pois encontrávamo-nos num extenso campo de surpreendentes margaridas.» (24)
«Até que se fez tarde no campo das flores. Partimos.» (25)
Este campo é o símbolo dos espaços dispersos e escondidos, onde se respirava a liberdade e o direito à diferença, e que existiam também no Portugal anterior a 1974. Ou então, o símbolo daquilo em que se desejava transformar o País “sombrio e poeirento”.
 
 

O simbolismo das personagens
 
As mulheres e as crianças
 
Tanto as mulheres como as crianças parecem aparecer sempre em grupo, não se distinguindo as individualidades. E têm em si algumas características que parecem simbolizar todo um povo oprimido por uma ditadura.
São obedientes, subservientes, submissas a uma figura mais velha, que não é paternal mas que é autoritária e ditatorial. E foram todas, crianças e mulheres, deixadas para trás por aqueles que partiram.
As mulheres apresentam ainda mais algumas características interessantes: à medida que o tempo vai passando, vão-se assemelhando cada vez mais ao velho ditador, tornando-se cada vez mais imóveis; apesar de aparentarem alguma alegria porque cantam e dançam, são profundamente tristes; finalmente, revelam-se traidoras.
Já as crianças, embora não sejam traidoras, são inconsequentes, são inócuas. Mesmo que admirem o tio e desejem tocar no sonho de liberdade e de beleza (a Instrumentalina) limitam-se a correr, a gritar e a brincar. Facilmente o seu silêncio é comprado por bolos e doces.
«…e na nossa cozinha, elas se curvavam perante eles, asfixiadas por cintos que as apertavam como cilhas.» (12)
«… percebo como elas eram seres parados, objectos encantados pelo tempo.» (14)
«À noite choravam junto das janelas» (14)
«E correndo como uma matilha indomável, sem dono, sem obstáculo, existíamos nós, as crianças, irmãs e primas entre si.» (12)
«Olha à tua volta e o que vês? Crianças e mulheres.» (15)
«… seus seios fossem pesos que as prendessem às cadeiras de cochim.» (18)
«… e para todos era uma vitória colocar a mão na grelha ou apenas seguir de perto, durante meio minuto, o rasto que a bicicleta deitava na poeira.« (19)
«Os primos comiam bolos nunca vistos.» (31)
«Mas o seu desgosto foi sobretudo intenso quando percebeu que as suas quatro cunhadas, dois dias antes, haviam recebido cada uma delas sua meia-libra de oiro.» (36)
Assim, parece-me que este grupo no seu conjunto simboliza o conjunto de um povo submetido e rendido a um governo ditador. Mulheres e crianças simbolizam aqueles que são oprimidos, que são aprisionados, que são mantidos debaixo de um estado que os controla e deles dispõe. E este povo não é capaz de mudar porque não sabe que é possível mudar, ou porque cada vez mais se adapta à situação e começa a partilhar dos mesmos princípios ou apenas porque o que quer que faça é irrelevante e é possível controlá-lo com música e bolos. Não eram os romanos que falavam já em “panem et circenses”?

Fotografia original de "Good_Day" - http://www.flickr.com/photos/good_day/219333127/

 
 
O tio Fernando
 
Claramente o tio Fernando é o sonhador, aquele que não tendo ainda partido, não se enquadra com o que o rodeia. É o amante da liberdade, o amante da beleza, o que, montado na sua bicicleta, consegue fugir ao controlo do avô.
É o oposto do ditador. É o livre e o que se quer livre. Mas que só consegue encontrar a sua liberdade fora e longe daquela sociedade.
«Mas o nosso tio era diferente, pois podia fugir de tudo e todos, correndo pelas estradas, e por vezes levando-nos consigo. Por isso éramos livres.» (18-19)
Ele simboliza todos os que no Portugal dos anos sessenta não se reviam na ditadura, não queriam ter nada a ver com aquele estado de coisas e que na maioria das vezes saíam do País e iam para o estrangeiro. Não me parece que ele seja o revolucionário, mas apenas aquele que defendia a revolução sem querer fazer parte dela.
 
O avô
Claramente, o avô é o símbolo do ditador e de todos os que desejavam perpetuar o estado das coisas. É imóvel, não se adapta nem evolui, intriguista, preocupado com os seus bens materiais acima de todas as coisas e capaz de mandar cometer atrocidades em nome da manutenção da “normalidade”.
«E nesse ambiente de meninos e mulheres, exercendo o seu magistério de homem director, inválido, sentado na sua cadeira de imóvel, desesperava o meu avô.» (15)
«Porque Deus quis que fosses tu o amparo do Pai, da sua saúde e dos seus haveres, bem como destas crianças e destas mulheres que os outros para aqui deixaram…» (16)
«Não era verdade que o avô me tinha dito que o desaparecimento da bicicleta poderia prendê-lo a casa? E como? Na minha ideia, a Instrumentalina em vez de o afastar ligava-o a nós como nenhum outro objecto. O raciocínio do avô parecia-me não ter lógica e no fundo da minha agitação, tudo se resumiria a uma vingança de pessoa ressentida. Pelo contrário, era preciso prendê-lo à estrada, devolvendo-lhe a Instrumentalina.» (35)
Este avô, símbolo da decrepitude, da decadência de um país e de um regime ditatorial é também símbolo da tacanhez, da incapacidade de compreender o que se passa à sua volta e incapaz de ler correctamente os sinais que se lhe apresentam.
É também curiosa a relação que este avô tem com a cadeira.
«O avô falava mas não se erguia do assento nem para alcançar um púcaro de água.» (18)
Seria esta cadeira o ponto de ligação entre aquele avô e António Salazar que por causa de uma queda de uma cadeira, fica inválido e acaba por morrer?
 

O simbolismo da Instrumentalina
Creio ser este o grande objecto simbólico do conto, sobretudo porque a bicicleta representa mais do que ela própria. Esta bicicleta é uma extensão do tio Fernando e representa o que de mais sonhador há nele.
Como se tivesse autonomia, vida própria, esta bicicleta não se limita a ser conduzida pelo tio Fernando. É ela quem o conduz muitas vezes, e é ela quem fascina os que alguma vez puderam tocar-lhe. A “Instrumentalina” parece ter vontade própria e definir ela mesma o trajecto de terceiros, como se mais do que um objecto, como se ela fosse uma ideia, uma ideologia, uma convicção. E todos serão afectados pela sua presença: seja o tio Fernando, seja a menina, sejam todos os outros que habitavam o espaço onde a bicicleta se movia.
E esta bicicleta que parece viver antes, depois e independentemente do tio Fernando é o símbolo da liberdade, do sonho, da evolução e da mudança num país que não o aceitava.

Fotografia progonal de Jekkyl - http://www.flickr.com/photos/jekkyl/300800502/

«Quem diria? Escondida no saco das reservas proibidas, havia anos e anos que não a soltava do seu lugar de abrigo, ainda que por vezes o seu selim, a sua roda pedaleira, ou a imagem caprina do seu retorcido guiador me aparecessem como coisas desgarradas. Era inevitável. Quem uma vez percorreu os caminhos do paraíso num transporte de delícia, jamais pode esquecer a imagem do objecto condutor.» (10)
«Mas o nosso tio era diferente, pois podia fugir de tudo e de todos, correndo pelas estradas, e por vezes levando-nos consigo. Por isso éramos livres. […] Amávamo-lo, disputávamo-lo, fazendo parte dele, como seu segundo corpo, a Instrumentalina.» (19)
E este simbolismo é tão mais forte, quanto é verdade que mesmo depois de supostamente assassinada (atirada para o fundo da nora) a bicicleta reaparecerá por si mesma, trinta anos mais tarde.
«A bicicleta longínqua aparecia de perfil, mostrava o brilho dos seus raios girando ao sol, e uma outra luminosidade da Terra aparecia.» (11)
Publicado por Adriana às 12:43

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Sábado, 3 de Março de 2007

Tradução do artigo da Ana Paula Ferreira

 


Embora certos de que uma tradução parcial de um artigo pode limitar e dificultar o rigor dessa mesma tradução, foi pedido à professora de Inglês das "Take5" que traduzisse parte do excelente artigo de Ana Paula Ferreira.

 

A ideia que prevaleceu, foi a de que este blog - independentemente e para além do SAPO Challenge - pode vir a representar uma fonte importante de informação para os internautas que procurem informação sobre Lídia Jorge e sobre "A Instrumentalina".

Quando verificámos que no espaço de uma semana de registos de visitas, tivemos leitores de:

  • Estados Unidos da América
  • Brasil
  • França
  • Espanha
  • Itália
  • Reino Unido
  • República Checa
  • Suíça
  • para além, evidentemente, de Portugal

pareceu-nos que este trabalho que inicialmente foi um projecto para um concurso está a ganhar uma relevância inesperada, sobretudo porque se trata de uma obra e um autora não muito documentada na WEB.

Assim, mesmo correndo o risco de não apresentarmos A MELHOR tradução, apresentamos a possível, para que outros (com a autorização da autora) possam tirar tanto ou mais proveito do que nós tirámos.

 

 


 

Excerto traduzido:

Como um vislumbre de luz que se levanta acima das tramas que decorrem em “Casa do Leborão” – “A última Dona” (o protótipo do que poderá ser o palácio/prisão barroco de Calderón), a curta história evoca um tempo/espaço de uma inocência infantil gravada no longo pesadelo da ditadura em Portugal.
Tal tempo/espaço é criado através de uma representação – a bicicleta homónima do título da história – que é um instrumento da liberdade mas também de maturidade emocional resultante do trauma da perda de um sonho. Nem comprado nem vendido e destinado a lado nenhum, é só em retrospectiva que um evento tão privilegiado é reconhecido como possuidor da qualidade de uma dádiva do conhecimento, emanando um tipo de graça sobrenatural que escapa à economia de troca.
O texto abre com uma epígrafe que pode não ser tanto uma justificação para suas dimensões diminutas mas um apelo hermenêutico: “Um conto breve faz um sonho longo.” Captando o leitor desde o começo na dimensão vital e vagarosa desse sonho, ou dádiva, cuja aparição o texto re-apresenta, “A Instrumentalina” obriga à articulação interpretativa daquelas outras representações (e seus instrumentos) ditando sobre o mundo de pesadelo histórico contra as probabilidades de que o sonho/dádiva libertadora surja.
Esta narrativa autobiográfica e ficcional, apresenta-se como uma recordação íntima e afectiva de um fragmento distante do passado provocado por uma deslocação acidental tornada em narrativa “voyage” através do tempo pessoal e colectivo. À espera no bar do Royal York Hotel em Toronto por um tio, que ela não vê há trinta anos, a narradora-protagonista encontra-se a si própria numa posição de distância geográfica, temporal, e ontológica. Suspensa na incredulidade, ela evoca a bicicleta do tio, “A Instrumentalina,” unindo num todo nostálgico e metafórico – “o simulacro duma imagem que foi mas o tempo já fez vã” (10) – as imagens que a tinham protegido previamente de confrontar uma plenitude do ser. A sua narrativa envolve-se, então, como uma passagem recuperadora (e terapêutica) entre o presente, assunto fragmentado que ela é, sentada no bar mal iluminado do Royal York Hotel, e a cena de fundação imaginária, onde um “eu” ideal tinha sido transportado e construído pela bicicleta do tio, as suas palavras, o seu retrato.
O objectivo não é reconhecer-se a si própria erraticamente na gravura congelada e cinemática da menina pequena sentada num campo de margaridas e interpelada como “Greta Garbo,” uma imagem de fantasia da “prova” ou “dádiva” de amor do tio, quebrado subsequentemente pelo desaparecimento tanto do veículo como do dono. Em vez de um monumento aleatório a um amor ganho e perdido, a (re)invenção de “A Instrumentalina” transforma-se num instrumento prático de busca discursiva através da qual o sujeito procura o seu paradeiro não como um indivíduo temporariamente contínuo, mas como um sintoma significativo da experiência transindividual que o constitui na língua heteronomicamente através dos funcionamentos do inconsciente. Isto é, o “eu” que recorda aqui – como o do reaparecimento em “O Vale da Paixão” – é nada mais do que um pretexto transitório e necessário (um significado) através do qual emergem aqueles outros textos (significados) que determinam a sua posição no discurso social. Este é eminentemente o discurso de um povo, uma nação, metonimicamente deslocada através do espaço e tempo devido ao poder simbólico e ditatorial de representações perpetuadas que não deixam nenhum “para além da gravura”, nenhuma “outra margem do tempo” ser fantasmizada. O vislumbre desta “outra margem” – como o outro lado da cidade em Notícia da Cidade Silvestre – é a dádiva (não simbolizada) levando a narrativa para a cena onde a memória-escrita entrega a vida ao fluxo infinito da significação.
Embora nenhumas referências cronológicas sejam dadas e a única referência da posição espacial da diegese é um ambíguo “ao sul do meu país”, recordada mais tarde como “terra da poeira, a narrativa “in-cita” (Seixo) a uma leitura histórica e alegórica. A casa do avô, onde as mulheres e as crianças são depositadas pelos filhos que emigram são, obviamente, um retrato reminiscente da experiência colectiva daqueles “guardados” – ou confinados – no Portugal de uma ditadura cada vez mais moribunda, mas ainda em pé. Esse algo está prestes a insinuar “um desequilíbrio inevitável” nesta “tragédia obscura” (13) que é detectado apenas subconscientemente. A fonte e os meios de tal “desequilíbrio político” seriam reconhecidos só muito mais tarde, em associação com um veículo simbólico do voo. Entretanto, as mães continuam a mimar os gestos domésticos tradicionais, intemporais comandados pela ideologia paternalistico-fascista da “felicidade no coração”: cozinham, cosem, escrevem cartas aos maridos ausentes, cantam e dançam ao som da grafonola mas, no fundo, elas choram secretamente a sua solidão, o seu abandono. Em contraste com a obediência resignada das mulheres à família e à lei nacional personificada pela figura do patriarca velho e inválido, as suas crianças correm livremente, “como uma matilha indomável, sem dono”. (12) E, apesar de lhe ter sido ordenado que seguisse os passos do velho homem, como chefe das propriedades da família, o único homem novo saiu nas suas rondas numa bicicleta, aparentemente com nenhum outro objectivo senão escapar ao que o pai lhe pediu.
Não é de admirar que seu veículo de voo, chamado depreciativamente “A Instrumentalina” pelo patriarca furioso, impotente para o parar, se transforme numa extensão do filho rebelde. Ambos, ele a sua bicicleta, representam esse espaço de liberdade, divertimento, e de sonho fechado àqueles que, quer por razões morais ou económicas, são obrigados e reproduzem as ordens do pai velho – as mulheres que ficam e escrevem cartas, e os trabalhadores com fantasias de se ir embora. Assim, as crianças, particularmente as meninas, devotam um fascínio “fanático” ao ciclista; e assim o “instrumento” passa a ser uma ameaça crescente para os adultos que o vêem como um meio de enfraquecimento da ordem social. Já que as mães escrevem cartas cada vez mais longas e visto que o patriarca reafirma a sua autoridade, sentado imóvel na sua própria prisão, o tio e as crianças voam em “A Instrumentalina.” O seu destino, se é que há algum, é sem importância; o que importa é que vão, que se afastam – mesmo se somente tocando imagens da parte da bicicleta.
É interessante ver dois paradigmas distintos da representação e as suas implicações históricas, políticas, e estéticas que estão em contraste neste cenário. Por um lado, a expressão linguística aparece como suporte e reprodução do que existe pela virtude da sua representação: o significado da Lei, ou da nação familiar abandonada à agonia permanente de um regime paternalista congelado no tempo. Este movimento circular é, por sua vez, travado pela erupção contínua das representações não-miméticas que permitem identificações fluidas, imaginárias e que não prendem.
Como já foi sugerido antes, as mães não só ocupam o centro do palco do espaço de representação do coração mas, de facto, elas são as guardiãs da imagem do seu próprio reflexo imaculado. As suas canções ecoam (isto é reproduzem) aquelas que se ouvem na grafonola; suas sócias de dança não são mais do que elas próprias; as cartas que escrevem parecem não ter nenhuma resposta. Tais representações de “voz,” movimento e recreação pessoal quando, na realidade, não há nada, constituem não só testamentos da devastação emocional e física das mulheres, mas, principalmente, da sua cumplicidade em manter a representação frágil, decrépita da instituição fascista “da casa portuguesa.” É lógico, por isso, que, como instrumentos executores da palavra do patriarca, se espere que as mulheres-mães suprimam qualquer ameaça, qualquer sinal de desordem em casa (nação) abandonada ao naufrágio ou “ruína” pelos homem-pais que a tinham deixado. Isto explica porque o homem velho se aproxima primeiramente da menina pequena apaixonada pelo tio – a miniatura de uma futura esposa-mãe – com uma moeda de ouro na troca do desaparecimento da bicicleta. E é por isso que ele ofereceria um presente generoso a toda a mulher nova que arrebatasse o tio ciclista para o casamento. Nunca se sabe o quê e se paga às noras para esconderem e assegurarem a destruição da bicicleta do tio – o veículo simbólico da resistência à ordem aparentemente eterna que sua reprodução de ambiente familiar garante.
Ao contrário deste modelo de representação, a narrativa sugere o que pode ser uma forma não-mimética, perpetuamente instável de (re)presentar não o que é mas o que não é, ou seja, o que só pode ser indício de um tempo-espaço utópico e libertador. Nomeada por uma figura reminiscente do deus-pai, o dador de todos os nomes, a bicicleta “A Instrumentalina” na realidade segue o rasto do “veneno” exposto na “dádiva” do seu nome. Assim a raiva e a confusão que conduz o patriarca agitado a nomear o veículo transgressivo do seu filho, cai, nem mais nem menos, sobre ele mesmo, entregando a dádiva de uma imagem-significado que escapa à fixação simbólica. Permanecendo “indiferente a terras e mulheres,” o tio Fernando só é “prisioneiro” da bicicleta (34), de sua qualidade sobrenatural como dádiva fora do mercado de troca. Desta maneira, “A Instrumentalina” abre caminho através do “realismo” da narrativa alegórica esboçada acima. Como significador perpetuamente em movimento, ela – a bicicleta e o tio – aponta para o exterior da sua moldura significativa. Neste nível, os instrumentos e as maneiras da representação tornam-se desnaturalizados; já não servem outro objectivo senão encorajar a mobilidade do significador, seu ponto de âncora necessariamente ausente.
Conjugando o jogo livre linguístico e ontológico posto em movimento pelo tio/bicicleta, dois meios de representação, ele destaca e, de certa forma, leva avante a cena de significação liberal da narrativa reclamada por “A Instrumentalina.” São as únicas posses estimadas do tio: uma câmara Kodak e uma máquina de escrever. Em vez de aceitar as responsabilidades da propriedade de família como um paterfamilias, que seria o sinónimo da sustentabilidade da lei do reino patriarcal, o tio ciclista é um fotógrafo amador; e bate na sua máquina de escrever durante toda a noite. Nenhuma finalidade identificada é dada para sua escrita até o tio ver a sua bicicleta destruída; a partir daí ele parece escrever cartas em desespero para se ir embora, para fugir. Assim como “A Instrumentalina,” Kodak e a máquina de escrever são, então, usadas contra as suas finalidades funcionais; podem ser considerados meios artísticos de pulos imaginários para um mundo sublime desprovido da regra da referência.
Desta forma, a cena em que a menina pequena, que tinha exigido, silenciosamente e subservientemente, ser reconhecida pelo Outro absoluto e fascinante, recebendo dele a dádiva de uma “viagem” a um campo de margaridas, é emblemática. Aqui, posando para a sua Kodak e transfigurada pelas suas palavras, ela é, não só levada a sentir-se como uma “rainha”; mas também é conduzida a visualizar-se na imagem de Greta Garbo: “uma mulher divina cujo olhar tirava o sono a quem a visse. Um dia, também eu haveria de vê-la e aprender com ela a fixar o olhar numa coisa distante que não havia”. (25) Apesar do “destino inevitável” que a espera na casa do avô, onde oito primos disputam a figura transportadora do tio/bicicleta, a protagonista é tocada para sempre pela “mágica das fotografias”. Um sentimento não-verbal, não-racionalizado que combina o conhecimento sobre o eu como Outro com poder libertador, transformador de representações não miméticas, que o “pressentimento” reemerge trinta anos mais tarde como um protector contra o fingimento da língua quotidiana ou representadora: “[A]quelas surpreendentes linhas não me pareciam ser verdade”, nota ela em resposta à mensagem escrita à mão em que o tio evoca o sua afeição passada a fim de apelar ao seu encontro no presente. A sua interpelação anterior – “Isso, isso, não te mexas, Greta Garbo” (25) – parece, assim, estar não só em oposição directa à mensagem escrita mas, de facto, ter desviado (para a protagonista) qualquer mandato simbólico de ordem obrigatória de identificação. O desviar-se de uma referência real para uma cinematográfica, da qual a protagonista é originalmente inconsciente, é o que constitui a “magia” duradoura dos retratos. A sua memória pode ser compreendida como a “instrumentalina” que a própria protagonista monta enquanto constrói de sombras literais e figurativas um tio que, talvez, nunca foi: “Acaso o dono d’A Instrumentalina não teria sido um sonho destinado apenas a fazer crescer pessoas indefesas?”.
A dúvida que atormenta o narrador sobre a própria existência física do seu objecto de representação é, naturalmente, a prova mais concreta do valor puro de uma dádiva impossível de trocar e que lhe tinha concedido a ela involuntariamente. Isto é, em parte, porque as fotografias, as palavras, e o olhar do doador escapam do ofício da verosimilitude; o seu significado fantástico, se é que existe, não pode ser inteligível, mas como um pressentimento. Para além disso, o tio, assim como acontecerá também com o pai-tio quase mítico, que extrai nascimentos e se desloca constantemente no O Vale da Paixão, não segue o trajecto de nenhum outro representante da ordem socio-económica e política que dita o exílio de milhares de portugueses. O tio deixa a casa-nação do patriarca como um clandestino característico, ajudado por um condutor intermediário de automóvel. No entanto, não se estabelece em nenhum lugar particular como seus irmãos emigrantes; simplesmente “desaparece”. Tudo o que é sabido subsequentemente sobre o seu paradeiro, limita-se apenas a boatos, e assim “[o] nosso tio fora-se transformando assim numa figura dispersa pela Terra como um espírito”. Provavelmente ele morre, indo de cidade em cidade e de continente em continente, “tal qual um Deus que se não mostra” (39). Escapando à representação, sem esposa, crianças, ou sequer possuindo afectos para o encarcerar à demanda para o reconhecimento e o retorno (isto é troca), o tio é transformado numa ideia abstracta da matéria corporal assim como das contingências do tempo e do lugar. Esta ideia pode ser considerada como o próprio espírito da resistência ao mandato representativo do Pai (qualquer Pai). Não obstante, a sua analogia com o lago (Ontário) que a protagonista enfrenta com um coração frio e séptico ao criar a presença do tio (41) é sugestiva da armadilha mímica construída nessa representação.
Invocado através da palavra escrita, tal presença ameaça matar o sonho longo da “história curta.” Porque quando o tio talhado nas cinzas da memória voltar para se dirigir à mulher madura que espera/escreve a “dádiva” que a narrativa recupera, ele personifica o próprio “veneno” da referência. A figura de média idade e bem trajada que se apressa através (sintomaticamente) da porta de vidro “transparente” pode, no melhor dos casos, falar como se tivesse descido de uma “bicicleta” comum: “Cresceste, miúda, cresceste. Mas a tua cara é ainda a mesma...” (41). Ou seja “o sonho longo” mencionado em epígrafe, o significado descongelador e efémero de “A Instrumentalina” como um veículo do transporte para “uma coisa distante que não havia” (25), é, no fim de contas, destruído pelo fado da língua. As linhas no cartão e, subsequentemente, as palavras do tio impõem uniformidade, continuidade, e identidade onde (para que haja o fluxo da vida) não deveria haver nenhuma. Está aqui “o destino inevitável” (op. cit.) que o”coração” marginal e solto, mas ainda desejoso e memorialista tem que enfrentar.

Tradução da professora Cristina Lardosa
Publicado por Prof. Vasconcelos às 18:21

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Artigo de Ana Paula Ferreira

Algumas notas prévias...

Artigo original (integral), publicado no número 2 da revista "Portuguese Literary & Cultural Studies" da Universidade do Massachusetts. Esta revista é da responsabilidade do "Department of Spanish and Portuguese Studies University Of Minnesota" , onde trabalha a Drª Ana Paula Ferreira.

Foi pedida à autora autorização para a publicação do artigo no nosso blog, autorização essa simpaticamente concedida pelo e-mail que transcrevemos: 

Fico muito satisfeita com a notícia do blog sobre "A Instrumentalina" e, segundo vi ao visitar o link que me enviaram na mensagem, que parte da obra de Lídia Jorge está também comentada na web.

Podem com certeza reproduzir esse meu artigo, que me deu gosto escrever, apesar da dificuldade dos conceitos com que trabalhei -- desconstrução e psicanálise. Se as alunas tiverem perguntas, fiquem à vontade.

Têm também a minha autorização para traduzir os exertos que acharem pertinentes. De novo, se houver perguntas, diga(m) alguma coisa.

Saudações cordiais da,

Ana Paula

 

Este artigo está em Inglês, mas estamos, com a colaboração da professora de Inglês, a ultimar a tradução para português das partes que considerámos mais importantes.

 


 

Donning the “Gift” of Representation:
Lídia Jorge’s A Instrumentalina

Ana Paula Ferreira

Nothing is more difficult than to accept a gift.1

 

Among the writers of fiction who emerged during the period following the “revolution not of the gun, but of the word,”2 otherwise known as the “Carnations Revolution,” Lídia Jorge is perhaps the one most in tune with what post-structuralist thought has variously denounced as the “violence of representation” (Armstrong). Ostensibly drawn from her life experiences as a self-fashioned writer, each of the author’s prose works published to date evokes contemporary realities with more or less localized historical, social, and geocultural specificity.3 Whether by means of allegory or, as is increasingly the case starting with Notícia da Cidade Silvestre (1984), through simulacra of “private” realities predicated especially on cinematic, metonymical images, such fictional scenarios resist enclosure in the “effect of the real” (Barthes).4 They problematize representation by calling attention to its complicity with power and by insisting on the provisional, discursively contingent, and overdetermined status of all figurations of history, community, identity, and otherness.5 Oscillating between the questioning of any truth claim bearing the imprint of the metaphysical, humanist logos and a renewed political and ethical imperative of referentials, Jorge’s fictions, somewhere between John Dewey’s philosophy of “instrumentalism” and Richard Rorty’s “pragmatism,” put into play ideas as tools for living within a postmodern episteme. In this manner, they pay back, further incur, in and bring the reader to bear witness to the debt of representation crystallized by the April 1974 revolution’s “greatest gift” – language freed from censorship.6

Any writer’s work is always something more or something other than what any given pretense of interpretive mastery can take it to be. Far from what would amount to a sweeping gesture of signification, the foregoing is but an attempt to poise the short story A Instrumentalina (1992) on the philosophical, aesthetic, and political pragmatics proper to but exceeding the openended textuality, or écriture, practiced by Lídia Jorge. As Maria Alzira Seixo has suggested, the author’s short stories “may be considered arguments of a more extensive fiction,” that neither “describes” nor “recreates” the real, but “cites” it. In all their brevity and expressive force, these narratives are eminently citational, inciting the reader to take part in the “textual dialogue” or “interdiscursive passage” that they enact (Seixo 1998; emphasis in the original; my translation). The density of meaning commanded by such an art of intertextual and intratextual “in-citation” is particularly exhibited in A Instrumentalina, arguably the best example of the meta-representational dimension of Jorge’s fiction. Hence its “instrumentality” for refracting the salient theoretical-practical features of the greater textual corpus, published before as well as after it. In fact, Jorge’s latest novel, O Vale da Paixão (1998), continuously “cites” the setting, figures, narrative threats, and themes first presented in the short story, so much so that what may be said about the latter may function as an introduction to the longer text.7

Notably, Seixo’s review of Marido e Outros Contos (1997) does not mention A Instrumentalina, published separately in 1992 although also included in this volume. As the imaginary bicycle of its title, the forty-one page story is both too grand and too delicate, too fleeting to easily stand a swift, even if interpretative, productive “in-citational” reading as just one story among others. Its original publication the same year as that of A Última Dona is in itself indicative of a uniqueness demanding a more pondered, special treatment. And this is obviously not just due to the status of the book as an editorial investment in an “isolated piece, endowed with its own autonomy and with a fascination that the reader will not forget.”8

Similarly, to a precious, intractable gift enveloped in layers of superimposed tissues (or texts), A Instrumentalina occupies a privileged position among Jorge’s other “writerly” attempts at figuring representation as an impossibility, as nothing else than a “gift [that] is not,” a “poisonous” gift.9 This position, as will be subsequently demonstrated through a series of detailed analytical un-wrappings, is one that momentarily suspends the circle of economic exchange in which every “gift” of representation, including every means to that end, is implicated. While nonetheless offering historical, political and aesthetic testimonies of such (“poisonous”) deadly exchange, the preciosity (if you will) of A Instrumentalina shines through those textual folds and contours, pointing to a liberating ontological and ethical elsewhere: a genesis-like stance of writing not as representation or reproduction, but as semiotic productivity. This anti-idealist (and anti-humanist) stance parallels Jorge’s other thematizations of writing, as evinced, for example, in Notícia da Cidade Silvestre; A Costa dos Murmúrios; O Jardim sem Limites; and, most particularly, in O Vale da Paixão. Writing is thus shown to emerge – to use the author’s own deliberately vague, though citational formula – from that margin of the margin “where the writer finds himself ” waiting in silence and circumspection to be saved by “the angel of language” (Jorge 1994: 93; my translation).10

That such an evasive, life-saving margin is closely associated to the childhood world of dream, a world still relatively innocent of utilitarian, logocentric thought, is first of all suggested by the contrapuntal relation established between A Última Dona and A Instrumentalina. Calderón de la Barca’s renowned Baroque drama, La vida es sueño, constitutes an appropriate intertextual framing (explicitly, in one case, and implicitly, in the other) for both texts, and thereby bringing to light the polarity of their respective dream worlds. If the novel attests to the annulment of the humanist Cartesian subject in a world reduced to simulacra and simulations (Baudrillard), the short story points to a vital, non-specularized and, therefore, non-objectified beyond; a space that may be said to revisit a generative, pre-symbolic locus of “signifiance.” 11

Bearing the historical and philosophical lesson of Seguismundo’s existential dilemma in the form of an epigraph – “Não me despertes se durmo e, se estou acordado, não me adormeças,”12 A Última Dona can be described as a postmodern thriller, an obscenely sinister nightmare staged by omnipresent image-making interests. Death, in the form of suicide by soporifics – that of Ana Palma, alias, Anita Starlet – becomes the ultimate sign of “life” in this all-too-cinematically planned charade of empty figures and depthless images; of intricate, though flat background scenarios; and of successive cuts. The intrigue lies precisely on the degree to which the latter occur because neither the figures nor the space they inhabit necessarily fulfills the director’s expectations – as if some remnant of human agency and of natural forces disturb the order of the shiny, uni-dimensional screen.13 Symptomatically so, the Engineer is the first to find himself impotent to perform; he is literally taken by the ludicrous but ultimately tragic picture that he only apparently directs, confident that his buying power can fulfill his libidinal capitalist fantasies. Thus the gift he buys himself, for his would-be sexual delight, (the image of ) a woman richly donned in a white wool coat and whom he calls “Anita Starlet,” cannot but turn out to be a sacrificial offer (gift/“don[a]”) made to a world devoid of transcendental values, and where the only guide for living are cinematic referentials.14

A Instrumentalina provides a direct contrast to this adult, eerie dream world reminiscent of a post-modern “late picture show,” engulfing all in the ubiquitous fateful reign of representation – a scenario more complexly developed in O Jardim sem Limites (1995). As a glimpse of light rising above the image-making machinations going in A Última Dona’s “Casa do Leborão” (the prototype of which may be Calderón’s Baroque palace/prison), the short story evokes a time-space of childhood innocence carved in the imprisoning “long nightmare” of Portugal’s dictatorship. Such a time-space is created through a representation – the homonymous bicycle of the story’s title – that is an instrument of freedom but also of emotional maturing resulting from trauma, from loss of a dream. Neither bought nor sold and destined nowhere, it is only in retrospect that such a privileged event is recognized as possessing the quality of a gift of knowledge, one bearing a kind of supernatural grace escaping the economics of exchange.15

The text opens with an epigraph that may not be as much a justification for its minute dimensions as it is a hermeneutic appeal: “Um conto breve faz um sonho longo.” Capturing the reader from the start in the lingering vital dimension of that dream, or gift, whose apparition the text re-presents, A Instrumentalina compels the interpretative articulation of those other representations (and instruments thereof ) dictating over the nightmarish historical world against the odds of which the liberating dream/gift emerges.

A fictional autobiographical memoir, the narrative presents itself as an intimate, affective re-collection of a distant fragment from the past prompted by an incidental trip turned narrative “voyage” (9) through personal and collective time.16 Waiting at the bar of the Royal York Hotel in Toronto for an uncle whom she has not seen in thirty years, the narrator-protagonist finds herself in a position of geographical, temporal, and ontological distance. Suspended in disbelief, she evokes the uncle’s bicycle, “A Instrumentalina,” bringing together into a nostalgic new metaphorical whole – “o simulacro duma imagem que foi mas o tempo já fez vã” (10) – the part images which had previously sheltered her from confronting a lost plenitude of being.17 Her narrative enfolds, then, as a recuperative (and therapeutic) transit between the present, fragmented subject that she is, sitting in the dimly lit bar of the Royal York, and that foundational imaginary scene, whereupon an ideal “I” had been transported and constructed by the uncle’s bike, his words, his picture-taking.

The objective is not to mis-recognize herself in the cinematic frozen frame of the little girl sitting in a field of daisies and interpellated as “Greta Garbo,” a fantasy image of the uncle’s “proof ” or “gift” of love, subsequently shattered by the disappearance of both vehicle and owner.18 Rather than an alienating monument to a love gained and lost, the narrative (re)invention of “A Instrumentalina” becomes a practical instrument of discursive quest through which the subject looks for her whereabouts not as a temporally continuous individual, but as a signifier-symptom of the transindividual experience that constitutes it in language heteronomically through the workings of the unconscious.19 In other words, the “I” that recollects here – as that reappearing in O Vale da Paixão – is nothing other than a necessarily transitory pretext (a signifier) through which emerge those other texts (signifiers) that determine its position in social discourse. This is eminently the discourse of a people, a nation, metonymically displaced across space and time due to the symbolic, dictatorial power of perpetuating representations that let no beyondthe- frame, no “outra margem do tempo” (12) be phantomed. The glimpse of this “other margin” – as the other side of the city in Notícia da Cidade Silvestre – is the (non-symbolized) gift moving the narrative towards the scene where memory-writing delivers life to the endless flux of signification.

Although no precise chronological references are given and the only mention of the spatial location of diegesis is an ambiguous “ao sul do meu país” (13), later recalled as “terra da poeira” (40), the narrative “in-cites” (Seixo) an allegorical historical reading. The grandfather’s house, where women and children are deposited by sons who emigrate is, obviously, a picture reminiscent of the collective experience of those “guarded” – or confined – in the Portugal of an increasingly moribund, but still standing, dictatorship. That something is about to instill a “desiquilíbrio inevitável” in this “tragédia obscura” (13) is sensed only subliminally. Only much later would the source and means of such a political “imbalance” be recognized, in association with a symbolic vehicle of flight. Meanwhile, mothers go on miming the traditional, atemporal domestic gestures commanded by the paternalistic-fascist ideology of “happiness in the hearth”: they cook, sew, write letters to absent husbands, sing and dance to the sound of the phonograph but, underneath it all, they secretly cry their solitude, their abandonment (14). In contrast to the women’s resigned obedience to the family and national law emblematized by the figure of the old, symptomatically invalid, patriarch, their children run freely, “como uma matilha indomável, sem dono” (12). And, although ordered to continue the old man’s role as master of the family’s estate, the only young man left in the house rides around on a bike, apparently with no other objective than to escape his father’s dictum.

It is no wonder that his vehicle of flight, derogatorily called “A Instrumentalina” by the enraged patriarch impotent to stop it (17), becomes an extension of the rebellious son. Both he and his bike represent that space of freedom, play, and dream barred to those who, either for moral or economic reasons, are obliged to and further reproduce the old father’s dictates – the women who stay and write letters, and the workers with fantasies of leaving (33). Thus, the children, particularly the female ones, devote a “fanatic” fascination to the cyclist (19-20); and thus the “instrument” poses an increasing threat to the adults who see it as a means of undermining the social order. As mothers write longer and longer letters and as the patriarch goes on asserting his authority, sitting immobile in his own prison (18), uncle and children take flight in “A Instrumentalina.” Their destination, if any at all, is unimportant; what matters is that they go, that they displace themselves –  even if only by touching part images of the bike (19).

Interestingly so, two distinct paradigms of representation and their consequent historical, political, and aesthetic implications are contrasted in this scenario. On the one hand, linguistic expression is shown to support and reproduce what exists by virtue of its representation: the signifier of Law, or the family-nation abandoned to the lasting agony of a paternalistic regime frozen in time. This circular movement is, on the other hand, halted by the continuous eruption of non-mimetic representations that allow for fluid, nonbinding imaginary identifications.

As suggested before, mothers not only occupy the center stage of the representational space of hearth but, in effect, they are the guardians of its selfreflecting, unchanging image. Their songs echo (i.e. reproduce) those they hear in the phonograph; their partners of dance are none other than themselves; the letters they write seem to have no response. Such representations of “voice,” movement, and self-recreation where, in reality, there are none constitute not only testaments to the women’s emotional and physical devastation, but, principally, to their complicity in upholding the frail, decrepit representation of the fascist institution of “the Portuguese home.” It is logical, then, that as instruments-executors of the patriarch’s word, the women-mothers are expected to suppress any threat, any sign of disorder in a home (-nation) left to wreckage or “ruin” (33) by the men-fathers who had abandoned it. This explains why the old man first approaches the little girl in love with her uncle – the miniature of a would-be wife-mother – with a gold coin in exchange for the bike’s disappearance (27-29). And that is why then he offers a generous dowry to any young woman who would snatch the cyclist uncle to marriage (31-32). One never knows what and if he pays the daughters-in-law for hiding and ensuring the destruction of the uncle’s bicycle (34-36) – the symbolic vehicle of resistance against the seemingly eternal order which their reproduction of domesticity guarantees.

Against this model of representation, the narrative suggests what may be a non-mimetic, perpetually unstable way of (re)presenting not what is but what is not, or in other words, what can only be inferred as a liberating, utopian time-space. Named by a figure reminiscent of god-the-father, giver of all names, the bicycle “A Instrumentalina” in actuality backtracks the “poison” incurred in the “gift” of its name. Thus the anger and confusion that leads the shaken patriarch to name his son’s transgressive vehicle fall upon none other than himself, delivering the present of a signifier-image that escapes symbolic fixation.20 Remaining “indiferente a terras e mulheres,” uncle Fernando is only “prisoner” of the bike (34), of its supernatural quality as gift outside the market of exchange. In this way, “A Instrumentalina” cuts through the “realism” of the allegorical narrative outlined above. As a perpetually moving signifier, it – both the bike and the uncle – point to the outside of its signifying frame. At this level, both the instruments and the ways of representation become denaturalized; they no longer serve any other objective than playing up the mobility of the signifier, its necessarily absent anchoring point.

Conjoining the linguistic and ontological free play put into motion by the uncle/bike, two mediums of representation highlight and, in a way, take further the narrative’s liberating scene of signification postulated by “A Instrumentalina.” They are the uncle’s only other prized possessions: a Kodak camera and a typewriter. Instead of taking on the responsibilities of the family’s estate as a paterfamilias, which would be tantamount to upholding the reigning patriarchal law, the uncle bicyclist is an amateur photographer; and he pounds away at his typewriter throughout the night (26). No identified purpose for his writing is given until after the uncle sees his bike destroyed; from then on he appears to write letters in desperation to leave, to run away (36). Like “A Instrumentalina,” the Kodak and the typewriter are, then, used against their functional purposes; they may be considered artistic mediums of imaginary leaps to a sublime world devoid of the rule of reference.

In this regard, the scene in which the little girl, who had silently and subserviently demanded to be recognized by the absolute, fascinating Other, receives from him the gift of a “voyage” to a field of daisies, is emblematic. Here, posing for his Kodak and transfigured by his words, she is not only made to feel like a “queen”; she is led to visualize herself in the image of Greta Garbo: “uma mulher divina cujo olhar tirava o sono a quem a visse. Um dia, também eu haveria de vê-la e aprender com ela a fixar o olhar numa coisa distante que não havia” (25). Despite the “destino inevitável” that awaits her at the grandfather’s house, where eight cousins dispute the transporting figure of the uncle/bike, the protagonist is forever touched by the “mágica das fotografias” (37). A non-verbal, non-rationalized feeling that compounds knowledge about the self as Other with the liberating, transforming power of non-mimetic representations, that “pressentimento” reemerges thirty years later as a shield against the pretense of quotidian or representational language: “[A]quelas surpreendentes linhas não me pareciam ser verdade,” she notes in response to the handwritten message in which the uncles evokes their past affect in order to summon their present encounter (40). His former interpellation – “Isso, isso, não te mexas, Greta Garbo” (25) – appears, thus, not only to stand in direct opposition to the written message but, in fact, to have deflected (for the protagonist) any symbolic mandate of order-bound identification. The turn away from “real” reference to a cinematic one, of which the protagonist is originally unaware, is what constitutes the pictures’ lasting “magic.” Its memory may be understood as the “instrumentalina” that the protagonist herself rides as she constructs from literal and figurative shadows an uncle who, perhaps, never was: “Acaso o dono d’A Instrumentalina não teria sido um sonho destinado apenas a fazer crescer pessoas indefesas?” (40-41).

The doubt overtaking the narrator about the very physical existence of her object of representation is, of course, the most concrete proof of the pure, non-exchange value of the gift that he had unwittingly granted her. This is, in part, because the donor’s photographs, words, and gaze evade the ploy of verisimilitude; their fantastic meaning, if any, cannot be intelligible but as a presentiment. In addition, the uncle, as will also happen with the almost mythic father-uncle who draws births and constantly displaces himself in O Vale da Paixão, does not follow the path of any other representative of the socio-economic and political order that dictates the exile of thousands of Portuguese. The uncle does leave the patriarch’s home-nation as a characteristic clandestine, aided by an automobile rider go-between (38). Yet, he does not settle in any one particular place as his emigrant brothers do; he simply “disappears.” All that is subsequently known about his whereabouts is limited to hearsay, and thus “[o] nosso tio fora-se transformando assim numa figura dispersa pela Terra como um espírito.” Presumably moving from city to city and continent to continent, he dies, “tal qual um Deus que se não mostra” (39). Escaping representation, with no wife, children, or possessing affects to imprison him to the demand for recognition and return (i.e. exchange), the uncle is transformed in an idea abstracted from corporeal materiality as well as from the contingencies of time and place. This idea may be conceived as the very spirit of resistance to the Father’s (any Father’s) representational mandate. Nevertheless, its analogy with the lake (Ontario) that the protagonist faces with a cold and skeptical heart as she brings up the uncle’s presence (41) is suggestive of the mimetic trap built into that ideaturned-representation.

Invoked through the written word, such a presence threatens to kill the short story’s “long dream.” For when the uncle fashioned out of the ashes of memory returns to address the mature woman waiting upon/writing the “gift” that the narrative recovers, he personifies the very “poison” of reference. The middle-aged, well-garbed figure who rushes through the (symptomatically) “transparent” glass door can, at best, speak as though he has just dismounted from a common “bicicleta”: “‘Cresceste, miúda, cresceste. Mas a tua cara é ainda a mesma...’” (41). In other words, the “long dream” mentioned in the epigraph, the non-congealing, fleeting meaning of “A Instrumentalina” as a vehicle of transport to “uma coisa distante que não havia” (25) is, in the end, destroyed by the fate of language. The lines on the card and, subsequently, the uncle’s words impose sameness, continuity, and identity where (for there to be the flux of life) there should be none. Here is the “destino inevitável” (op. cit.) that the marginal and detached, but still desiring, memorialist’s “heart” must face.

Closely related to the confining trap and, simultaneously, the redeeming, emancipatory potential of representation, Lídia Jorge’s skepticism with the question of sexual difference in her writing finds here an “instrumental” illustration.21 In tune with a deconstructive notion of “femininity” in its possible linkage to the condition of “gift” (in the sense that femininity as well as the gift respond to what is not), the story suggests how destructive is the temptation to name, to categorize, what should remain unsymbolized.22 To use language for the purposes of pinning down the flux of time and of identity is the work of those who are (or become, like the mature uncle) the instruments of the pervasively dictatorial, logocentric, socio-cultural order. Or, to recognize the “miúda” of yesteryear in the face of the woman voyaging through the necessarily foreign, marginal space of writing-memory, is tantamount to withhold from her the discovering, productive stance that constitutes her textually.23 Thus, the narrative riding on a kind of “instrumentalina,” the process of writing as begetting the infinite mobility of self, others, the world, thrives on the eminent threat of objectifying, falsifying and ultimately killing the movement of life that it is due to (re)create.

This impasse of representation is fully dramatized in O Vale da Paixão, following the evocation or, better, “convocation” of a female autobiographical narrator who bears the unsettling reminder of a father who is not. Overwritten with other memories, other voices, all profusely referenced spatially and temporally, the protagonist pieces together the textualized fragments of her father’s memory, incorporating and, at the same time othering herself along with them. The movement back and forth from the “I” of enunciation to the “she” of the enoncé (as also happens, for example, in Eva Lopo’s narrative in A Costa dos Murmúrios) emphasizes the fragmentation and discontinuity that the narrative in vain tries to foil. More importantly, however, that process of constant doubling and displacement gestures towards the gift of sorts that the father represents for the writer of the memoir, ultimately because what he gives her remains (for him) an unfulfilled promise, a debt: “‘Tanto que te devo!’” (22). This paradox is the ideal condition rendering possible the “gift” of representation that the narrator indeed beholds – the father’s drawings, originally enmeshed in the duplicitous interchange of donnees (her mother and uncle/stepfather) who assign her an ambiguous place in the social order (23). From these drawings, or the ontological and socio-cultural margin that their tracings entail, the narrator can at will call upon “O filme de Walter Dias…um filme onde ninguém entrava nem saía que não fosse por vontade dela” (25).

Just like the amateur uncle photographer of A Instrumentalina, the father roams around, delivering himself to the “ocupação inútil” (234) of drawing birds as an escape from the authoritarian, reproductive environment commanded by a land-owning patriarch who administers his estate as Salazar is known to have administered the nation.24 Subsequently, the father may ride boats, trains, and automobiles, but he goes on sending home drawings of whatever species of birds he finds abroad. Such literal and metaphorical traces recalling previous traces (as opposed to the representational memory of the man himself ) are, however, repeatedly tainted by others’ narratives, and especially by “cartas envenenadas” sent by the father’s siblings to inform the family back home of his doings and whereabouts (191). Like missiles, these missives insist on representing, on endowing with “realist” physical materiality, and demonized at that, what amounts to an emblem of unconventional or artistic flight from the deadly submission to socio-cultural referents.

In the face, then, of an over-represented, spoiled memory on the mirror of which she finds herself, the writer-protagonist must at once honor the father as open, polyvalent text and kill its possible “reality” in order to survive:

 

Ela queria visitar o interior de Walter. Queria assaltá-lo por dentro, sem ruído…destruir-lhe a pessoa, conspurcando-o, transformando a doçura da sua imaterialidade evanescente numa parábola de natureza carnal para que desaparecesse (210-11).

 

Having become increasingly identified and recognized by others as a direct descendant of the man, the thirty-year-old woman thus coldly converts the memory of her father in a “caso interessante,” treating and analyzing it as if it were a corpse. Her aim is to throw upon such a textual corpus/corpse the “rede da aranha explicativa” with the intention of capturing, of smashing, and thus of freeing herself from the lingering phantom-signifier “Walter” (212). One never knows what are the contents of the three narratives that she hands to her reluctant father in his shady Buenos Aires dancing hall, not surprisingly named “Bar los Pájaros.” What the daughter, and the reader, is given to know is how futile, if not dangerous, representation in fact is in a political atmosphere commanding reproduction and representational terror: “Sí, sí, no necesito dibujarlos para encontrarlos. Los pájaros...” (220). While the mature man has learned to free the birds from his own fixing gaze, the daughter’s narrative, in the end, may accomplish just the opposite. Walter finally dies, leaving her his last, sole possession – the soldier’s blanket whereupon he had presumably delivered himself to the “useless” activity of drawing births (235). Accompanying this testamentary monument to his life and works, he leaves his daughter the grace, or “miracle,” of a handwritten card that ultimately recovers the image of “a inocência da criança, quando a criança estende as palmas das mãos para mostrar a inocência” (237). On and all, and with perfect circularity, the novel captures and inscribes this depthless, virtually cinematic show of innocence, rehabilitating the father’s gift from all “poisoned” representations to the domain of fantasy – this running counter to and ironically commenting on the simulacra of historicism propelling the narrative movement.

Notwithstanding the metatextual tour de force of O Vale da Paixão, it is all there already in the “short story that makes a long dream,” A Instrumentalina. This text indeed may be considered Lídia Jorge’s most “instrumentalist” reflection of her creative investment in the complex issue of representation through the apparently unpretentious narrative form of a parable. As a simple story relating an ordinary occurrence of greater philosophical (and pedagogical) appeal, the text is exemplary in terms of the author’s alleged “survival through [the art of] writing.”25 At the same that it illuminates both earlier and later novels’ representational arrests, it plays up that margin of the margin – to use Jorge’s formulation once again – where “the angel of language” saves the flux of life through the written word. This double movement of evoking or, if you will, citing the multi-layered and multi-voiced texts that go by the name of socio-cultural, local, and historical “reality” and, simultaneously, of hinting at something else, at a beyond the frame of symbolic reference constitutes the irrecuperable “gift” of the author’s works. If these don the Revolution’s “greatest gift,” they also consistently engage figurations of “gifts” of representation that can only be not, lest the economics of exchange give way to yet another mere simulacrum of utopia.

 

 

Notes

1 – Derrida, in Kamuf 410. I wish to express my gratitude to Lídia Jorge for giving me A Instrumentalina in the Summer of 1994, with the dedication, “Para que o mar que separa, una, através de cais imaginados.” Coincidentally, a first draft of the present paper was presented at the Royal York Hotel in Toronto (an “imaginary pier” featured in  ), where the Annual Convention of the MLA was held in December of that year.

2 – Riegelhaupt 3.

3 – Throughout numerous interviews and public presentations about her work, Lídia Jorge often recalls how writing has been for her a form of survival since she was a child. “Não imagino sobreviver sem ser através da escrita.” she affirms with respect to her novel A Costa dos Murmúrios, adding the self-explanatory note, “África é um mapa de recordações ligadas à escrita nas minhas experiências da vida” (in Vitorino 23, my italics). For the early formative years of Jorge’s “writerly” life experiences, see especially Ambrogi 9-10; for a broader panorama of the author’s persistence to go on writing against all personal and political odds, to write as a form of (feminine) survival, see particularly Luís Almeida Martins.

4 – Notícia da Cidade Silvestre (1984) may be considered the point of transition from the allegorical mode exploited in O Dia dos Prodígios (1980) and O Cais das Merendas (1982) to the shiny, “more real than real” part-image characteristic of postmodern culture and aesthetics in their eminently cinematic underpinnings. This latter tendency, as well as its social and ethical implications, comes obviously to the fore in O Jardim sem Limites (1995). A Última Dona (1992) is, however, in my view, an emblematic narrative about the literally suicidal precipice faced by the subject-turned-surface, cinematic image by what Fredric Jameson calls the “cultural logic of late capitalism.”

5 – I have demonstrated this at length elsewhere. See especially my “Lídia Jorge’s A Costa dos Murmúrios.”

6 – The phrase “a grande dádiva” to describe the freedom of expression brought about by the April 25, 1974 Revolution appears in a 1983 interview of Lídia Jorge as part of the postrevolutionary scene encouraging the emergence of new prose writers and the more general yearly increase of publications in prose. See Valdemar 12.

7 – For reasons of space, I will limit myself here to point out briefly at the end of this study how the latter narrative text echoes the representational impasse sketched in A Instrumentalina. I focus on O Vale da Paixão in a separate study currently in progress.

8 – I quote from the editorial blurb on the book’s back cover; my translation.

9 – Here I use Derrida’s argument about the gift analogously, by bringing it to bear on the issue (or the “gift”) of representation as something that “is not. One cannot ask, ‘what is a gift?’; yet, it is only on that condition that there will have been, by that name or another, a gift” (in Kamuf 410; italics in the original). Derrida’s concept of the gift draws on the suggestion that the German homonym for “gift” is the adjective “poisonous.” The same can be said about the “gift” of free representation in the context of post-revolutionary Portugal.

10 – Typically ambivalent with regard to the gender specificity of her writing, in a paper delivered in the congress “Le scritture delle donne nelle culture iberiche,” held in Venice in Jan. 25-27, 1993, Lídia Jorge ends up by defending the ontological marginality that commands the genesis of any writing (Jorge 1994). Although, of course, no mention of theoretical sources is made, Jorge’s formula echoes in part Hélène Cixous’s concept of the writer as an “exile” (12) and Deleuze and Guatari’s arguments about the nomadic or gypsy-like position that “minority” writers occupy in a dominant literary language (18-21).

11 – I use the term here in a Kristevean sense to mean the infinite generational and combinatorial play of meaning characteristic of textuality, as opposed to a quotidian, representational use of language. See, in this regard, Ducrot 356-59.

12 – The quote is extracted from La vida es sueño, Act III, Scene IV, when Seguismundo, who has learned a lesson in humility and skepticism, responds cautiously to the soldiers who go to his prison to hail him as their master and Prince: “A reinar, fortuna, vamos; / no me despiertes si duermo, / y si es verdad, no me duermas. / Mas sea verdad o sueño, / obrar bien es lo que importa;. . .” (Calderón de la Barca 158).

13 – In this analyis, I loosely follow Jameson’s concept of postmodern space.

14 – When asked about the filmic references present in her work, especially visible in O Jardim sem Limites (1995), Lídia Jorge explained that her use of cinema obeys a non-premeditated “impulso” in following “os sinais do presente.” She states, “Não é no cinema que encontramos o pensamento, mas é nele que encontramos os pontos de referência que balizam a nossa vida” (in Maria João Martins 15, my italics).

15 – As Derrida states, “A gift, if there is one, does not destine itself” (Kamuf 507).

16 – This “voyage” has all the characteristics of a therapeutic psychoanalytical narrative, as the following reading will suggest. Whether deliberately or not, Lídia Jorge’s texts owe much to a Lacanian concept of the subject in language, that is, the subject of desire. See, in this respect, my study of O Cais das Merendas, “Lídia Jorge’s ‘Strategies of Navigation.’”

17 –  Lacan associates the metaphor to the question of being and the metonym to its irrecoverable loss – what he calls the “manque à etre” throwing the subject in endless (narrative) displacements through the defiles of the signifier. See, for example, Lacan, 174-75.

18 – What characterizes the little girl’s demand for the uncle’s attention and recognition, that is, for his unconditional love, is the illusion that the Other (the uncle) possesses “the ‘privilege’ of satisfying needs, that is to say, the power of depriving them of that alone by which they are satisfied. This privilege of the Other thus outlines the radical form of the gift of that which the Other does not have, namely, its love.” In this way, “The very satisfactions that [demand] obtains for need are reduced to the level of being no more than the crushing of the demand for love” (Lacan 286, my italics).

19 – I here follow Lacan’s concept of the unconscious as “that part of the concrete discourse, in so far as it is transindividual, that is not at the disposal of the subject in reestablishing the continuity of his conscious discourse” (49).

20 – Here I follow Derrida’s famous argument in “Des Tours de Babel” regarding the origin of language in God’s name and its consequent dismemberment in tongues, sowing confusion among men, and poisoning the gift of language (Kamuf 246).

21 – Jorge’s standing on the question of sexual difference may be read in Louro, 1984; Ambrogi, 1985; and, especially, in the author’s own essay, “Sobre o género,” about Greenway’s adaptation of Virginia Woolf’s Orlando to cinema.

22 – In “Choreographies,” Derrida briefly addresses the “im-pertinence” of the question of sexual difference in relating it to the condition of “gift” (Kamuf 446-47).

23 – In this respect, see also Jorge, 1994: 93, mentioned in note 10 above.

2

Publicado por Prof. Vasconcelos às 13:31

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Sexta-feira, 23 de Fevereiro de 2007

As personagens - A Instrumentalina

A Instrumentalina #2

Uma outra forma de caracterizar esta personagem...

Fotografia original de Mister Dillon

 
A Instrumentalina é uma bicicleta (a bicicleta do tio Fernando) e é o «transporte de delícia».
«Quem diria? Escondida no saco das reservas proibidas, havia anos e anos que não a soltava do seu lugar de abrigo, ainda que por vezes o seu selim, a sua roda pedaleira, ou a imagem caprina do seu retorcido guiador me aparecessem como coisas desgarradas. Era inevitável. Quem uma vez percorreu os caminhos do paraíso num transporte de delícia, jamais pode esquecer a imagem do objecto condutor.» (10)
Mais do que um objecto, a Instrumentalina é um símbolo. O símbolo da liberdade, do prazer, da autonomia, da autodeterminação das personagens. É o «objecto condutor» (10) do sonho.
«Mas o nosso tio era diferente, pois podia fugir de tudo e de todos, correndo pelas estradas, e por vezes levando-nos consigo. Por isso éramos livres. […] Amávamo-lo, disputávamo-lo, fazendo parte dele, como seu segundo corpo, a Instrumentalina.» (19)
Ela é o instrumento usado para conservar o sonho. E é por isso que tem o nome de “Instrumentalina” – porque é o instrumento!
«A princípio tinha-lhe chamado figa, e depois trambolho e oito do Inferno, para em seguida se fixar naquele nome estranho, parente degenerado de utensílio, pelo qual nutria um despeito de ácido.» (17)
E enquanto símbolo dessa liberdade ela é amada sobre todas as coisas
«… e esse tio amava acima de tudo a sua bicicleta de corrida.» (18)
Mas é também profundamente odiada.
«Mas o seu ódio, seu profundo rancor, ele o reservava intacto para a bicicleta marca Deka, insultando-a em grandes gritos de “Instrumentalina”.» (17)
«Porque devemos impedir que ele se vá, fazendo-a desaparecer.» (28)
E esta tentativa de fazer com que a bicicleta deixe de ser uma bicicleta acaba por se revelar muito interessante.
O avô, ao insultá-la com o nome “Instrumentalina”, tenta, no fundo, coisificá-la, torná-la “coisa” e retirar-lhe a dignidade de bicicleta. Ao deixar de ser uma bicicleta como as outras (um objecto útil, reconhecido) e ao ser tratada como “maldito instrumento”, o avô tenta rebaixar a aquela bicicleta ao mais vulgar, ao mais baixo degrau dos objectos manipulados pelos humanos.
«Retirem-me da vista esse maldito instrumento! Levem-me da vista a Instrumentaliiina!» (17)
Mas curiosamente, esse processo de retirar àquela bicicleta o “estatuto” de mera bicicleta vai revelar-se com resultados opostos junto das crianças. Para elas (como para o tio Fernando) aquela não é apenas uma bicicleta como as outras. É um objecto especial, uma “coisa” do reino do fantástico. E a bicicleta vai também ser coisificada pelas crianças, mas no sentido inverso. Elas vão atribuindo-lhe uma aura de magia que a faz deixar de ser uma bicicleta e a faz passar a ser mais do que uma bicicleta; passa a ser um objecto quase sagrado e venerado.
«… querendo ser cada um de nós a amparar a Instrumentalina até ao canto do quarto onde o objecto corredor passava a noite…» (17)
«Por ironia, a designação que o nosso avô lhe havia atribuído com chancela de ódio soava-nos a um nome da família, e gastávamo-lo de tanto o repetir.» (18)
Aliás, parece-nos que a Instrumentalina é, ela mesma, uma personagem do conto.
Aquela bicicleta tem nome próprio, é quase sempre referida pelo seu nome e o nome é sempre maiúsculado.
A Instrumentalina parece também ter vontade própria e capacidade de ser o sujeito de acções.
«A bicicleta longínqua aparecia de perfil, mostrava o brilho dos seus raios girando ao sol, e uma outra luminosidade da Terra aparecia.» (11)
«... a triste parecia um ser humano...» (36)
E é enquanto símbolo e personagem que esta bicicleta se intromete na história narrada e obriga por diversas vezes a acção a alterar o rumo previsto e pré-definido.
Talvez que um dos melhores exemplos seja o dia do rompimento do noivado entre o tio Fernando e a “rapariga sem anel”.
Numa tentativa desesperada de salvar a casa e os haveres, o avô “arranja” um casamento para o tio Fernando. O noivado arrasta-se penosamente, sem qualquer demonstração de interesse por parte do tio. A determinado momento, o pai da rapariga vem tomar satisfações quanto às intenções reais do “noivo”. E como se de uma outra mulher se tratasse, a Instrumentalina surge no cenário daquele acerto de responsabilidades, afastando definitivamente o tio Fernando da rival, como se fosse ela a responsável última pelo fracasso daquela empresa matrimonial.
«Ali estavam finalmente para ouvirem da boca do Fernando o que queria, se queria e quando queria. A sua filha mais velha era uma herdeira, não era um trapo. E se de facto haviam combinado para ele a doação de um triplo dote, existiam limites para a dignidade e a paciência. O tio, porém, nessa tarde, a braços com um arranjo na Instrumentalina, apareceu de mãos cheias de sebo como os mecânicos, completamente estranho ao estratagema.» (32-33)
Como se ela fosse a carcereira da única esperança de manutenção do estado das coisas.
«Para o seu sogro comum [o avô], porém, só havia um ser culpado da vasta ruína humana que chegava ­– seu filho Fernando, o indiferente a terras e mulheres, o prisioneiro da Instrumentalina.» (34)
Bicileta no fundo da nora
E esta "personagem-instrumento" vai conseguir sobreviver ao ataque último do avô que ordena (compra) o seu desaparecimento no fundo de uma nora. Mas, se por momentos, somos levados a acreditar que a "personagem morreu"...
«Partida, convertida num monte de sucata, a triste parecia um ser humano de pescoço torcido sobre as ervas.» (36)
logo nos apercebemos que a sua força, o seu simbolismo ultrapassa e permanece para além do tempo.
«No entanto, passados tantos anos, reunida, como se pudesse ter-se mantido unificada pelo tempo, visitava-me rodando sobre o gelo como antigamente acontecia, nos campos de calor e poeira.» (10)
Publicado por Marta às 14:47

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