Sábado, 24 de Fevereiro de 2007

As Personagens - As mulheres

As figuras femininas #1

Duma forma muito breve, podemos caracterizar estas figura femininas deste modo:

As figuras femininas eram, naquela altura, a mãe e as tias da menina.

Elas ouviam e muitas vezes cantavam e recompunham as suas próprias letras construíndo outras músicas e dançando agarradas pelos ombros umas das outras.

Mas, apesar de terem momentos muito divertidos, por outro lado trabalhavam desde o nascer do Sol e à noite choravam junto das janelas. Liam cartas, escreviam cartas e guardavam-nas. Os seus maridos, todos eles, tinham partido para a guerra.

Estavam muitas vezes na cozinha e as suas grandes conquistas eram os três fogões a petróleo.

Publicado por Ana Lúcia às 13:05

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Sexta-feira, 23 de Fevereiro de 2007

As personagens - A Instrumentalina

A Instrumentalina #2

Uma outra forma de caracterizar esta personagem...

Fotografia original de Mister Dillon

 
A Instrumentalina é uma bicicleta (a bicicleta do tio Fernando) e é o «transporte de delícia».
«Quem diria? Escondida no saco das reservas proibidas, havia anos e anos que não a soltava do seu lugar de abrigo, ainda que por vezes o seu selim, a sua roda pedaleira, ou a imagem caprina do seu retorcido guiador me aparecessem como coisas desgarradas. Era inevitável. Quem uma vez percorreu os caminhos do paraíso num transporte de delícia, jamais pode esquecer a imagem do objecto condutor.» (10)
Mais do que um objecto, a Instrumentalina é um símbolo. O símbolo da liberdade, do prazer, da autonomia, da autodeterminação das personagens. É o «objecto condutor» (10) do sonho.
«Mas o nosso tio era diferente, pois podia fugir de tudo e de todos, correndo pelas estradas, e por vezes levando-nos consigo. Por isso éramos livres. […] Amávamo-lo, disputávamo-lo, fazendo parte dele, como seu segundo corpo, a Instrumentalina.» (19)
Ela é o instrumento usado para conservar o sonho. E é por isso que tem o nome de “Instrumentalina” – porque é o instrumento!
«A princípio tinha-lhe chamado figa, e depois trambolho e oito do Inferno, para em seguida se fixar naquele nome estranho, parente degenerado de utensílio, pelo qual nutria um despeito de ácido.» (17)
E enquanto símbolo dessa liberdade ela é amada sobre todas as coisas
«… e esse tio amava acima de tudo a sua bicicleta de corrida.» (18)
Mas é também profundamente odiada.
«Mas o seu ódio, seu profundo rancor, ele o reservava intacto para a bicicleta marca Deka, insultando-a em grandes gritos de “Instrumentalina”.» (17)
«Porque devemos impedir que ele se vá, fazendo-a desaparecer.» (28)
E esta tentativa de fazer com que a bicicleta deixe de ser uma bicicleta acaba por se revelar muito interessante.
O avô, ao insultá-la com o nome “Instrumentalina”, tenta, no fundo, coisificá-la, torná-la “coisa” e retirar-lhe a dignidade de bicicleta. Ao deixar de ser uma bicicleta como as outras (um objecto útil, reconhecido) e ao ser tratada como “maldito instrumento”, o avô tenta rebaixar a aquela bicicleta ao mais vulgar, ao mais baixo degrau dos objectos manipulados pelos humanos.
«Retirem-me da vista esse maldito instrumento! Levem-me da vista a Instrumentaliiina!» (17)
Mas curiosamente, esse processo de retirar àquela bicicleta o “estatuto” de mera bicicleta vai revelar-se com resultados opostos junto das crianças. Para elas (como para o tio Fernando) aquela não é apenas uma bicicleta como as outras. É um objecto especial, uma “coisa” do reino do fantástico. E a bicicleta vai também ser coisificada pelas crianças, mas no sentido inverso. Elas vão atribuindo-lhe uma aura de magia que a faz deixar de ser uma bicicleta e a faz passar a ser mais do que uma bicicleta; passa a ser um objecto quase sagrado e venerado.
«… querendo ser cada um de nós a amparar a Instrumentalina até ao canto do quarto onde o objecto corredor passava a noite…» (17)
«Por ironia, a designação que o nosso avô lhe havia atribuído com chancela de ódio soava-nos a um nome da família, e gastávamo-lo de tanto o repetir.» (18)
Aliás, parece-nos que a Instrumentalina é, ela mesma, uma personagem do conto.
Aquela bicicleta tem nome próprio, é quase sempre referida pelo seu nome e o nome é sempre maiúsculado.
A Instrumentalina parece também ter vontade própria e capacidade de ser o sujeito de acções.
«A bicicleta longínqua aparecia de perfil, mostrava o brilho dos seus raios girando ao sol, e uma outra luminosidade da Terra aparecia.» (11)
«... a triste parecia um ser humano...» (36)
E é enquanto símbolo e personagem que esta bicicleta se intromete na história narrada e obriga por diversas vezes a acção a alterar o rumo previsto e pré-definido.
Talvez que um dos melhores exemplos seja o dia do rompimento do noivado entre o tio Fernando e a “rapariga sem anel”.
Numa tentativa desesperada de salvar a casa e os haveres, o avô “arranja” um casamento para o tio Fernando. O noivado arrasta-se penosamente, sem qualquer demonstração de interesse por parte do tio. A determinado momento, o pai da rapariga vem tomar satisfações quanto às intenções reais do “noivo”. E como se de uma outra mulher se tratasse, a Instrumentalina surge no cenário daquele acerto de responsabilidades, afastando definitivamente o tio Fernando da rival, como se fosse ela a responsável última pelo fracasso daquela empresa matrimonial.
«Ali estavam finalmente para ouvirem da boca do Fernando o que queria, se queria e quando queria. A sua filha mais velha era uma herdeira, não era um trapo. E se de facto haviam combinado para ele a doação de um triplo dote, existiam limites para a dignidade e a paciência. O tio, porém, nessa tarde, a braços com um arranjo na Instrumentalina, apareceu de mãos cheias de sebo como os mecânicos, completamente estranho ao estratagema.» (32-33)
Como se ela fosse a carcereira da única esperança de manutenção do estado das coisas.
«Para o seu sogro comum [o avô], porém, só havia um ser culpado da vasta ruína humana que chegava ­– seu filho Fernando, o indiferente a terras e mulheres, o prisioneiro da Instrumentalina.» (34)
Bicileta no fundo da nora
E esta "personagem-instrumento" vai conseguir sobreviver ao ataque último do avô que ordena (compra) o seu desaparecimento no fundo de uma nora. Mas, se por momentos, somos levados a acreditar que a "personagem morreu"...
«Partida, convertida num monte de sucata, a triste parecia um ser humano de pescoço torcido sobre as ervas.» (36)
logo nos apercebemos que a sua força, o seu simbolismo ultrapassa e permanece para além do tempo.
«No entanto, passados tantos anos, reunida, como se pudesse ter-se mantido unificada pelo tempo, visitava-me rodando sobre o gelo como antigamente acontecia, nos campos de calor e poeira.» (10)
Publicado por Marta às 14:47

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As personagens - A Instrumentalina

A Instrumentalina - #1

Neste conto (A Instrumentalina) as personagens são poucas, em quantidade, no entanto, são todas elas muito ricas, em qualidade, nas emoções, nos sentimentos e nos ideais que transmitem. Escolhi, A Instrumentalina, por ser, não apenas um objecto – uma simples bicicleta de corrida – mas por se revelar, do meu ponto de vista, como a personagem principal da história e a que contém a maior simbologia em termos de mensagem.
 
A Instrumentalina
 
No conto, a Instrumentalina não é apenas uma bicicleta.
A Instrumentalina é um objecto que ganha a dimensão de uma personagem.
 
Tem nome:
“Tanto o meu tio, como a Instrumentalina e eu”.
 
É amada e odiada, como se de uma pessoa se tratasse.
 
É amada pelo tio:
“Fernando, o prisioneiro da Instrumentalina”
“Fazer desaparecer a bicicleta do tio parecia-me uma monstruosidade semelhante a fazer adoecer ou matar o próprio tio”
 
É, também, amada por todos os sobrinhos:
“As cenas da escolha do que seria contemplado com uma volta, sentado na grelha que naquele tempo as bicicletas de corrida ainda consentiam, roçava o furor religioso.”
 “… querendo ser cada um de nós a amparar a Instrumentalina até ao canto do quarto onde o objecto corredor passava a noite”.
 
É odiada pelo avô:
“Os gritos do nosso avô imóvel ouviam-se à distância, e por eles se percebia como odiava o velocípede. Também odiava a Kodak, com o seu fole, e a máquina de escrever onde o nosso tio de olhos fechados fazia questão de compor o nosso nome. Mas o seu ódio, o seu fundo rancor, ele reservava-o intacto para a bicicleta marca Deka, insultando-a em grandes gritos de «Instrumentalina». A princípio tinha-lhe chamado figa, e depois trambolho e oito do Inferno, para em seguida se fixar naquele nome estranho, parente degenerado de utensílio pelo qual nutria um despeito de ácido.» 
A Instrumentalina tinha o poder de unir ainda mais o tio à família «Na minha ideia, a Instrumentalina em vez de o afastar ligava-o a nós como nenhum outro objecto», apesar de nem o avô nem as mulheres o perceberem.
 
A Instrumentalina é também um símbolo. Um símbolo para todas as outras personagens que são instrumentos do sonho, da liberdade, do que fica mais além. O avô não percebeu que o «instrumento» representava a necessidade e a urgência, a vontade e o apelo de ser livre.
«Mas o nosso tio era diferente, pois podia fugir de tudo e todos, correndo pelas estradas, e por vezes, levando-nos consigo. Por isso éramos livres.»
“Quem uma vez percorreu os caminhos do Paraíso, sentado num transporte de delícia, jamais pode esquecer a imagem do objecto condutor.”
O importante não é a bicicleta, mas o que ela significa para as crianças, para o tio Fernando e para o avô.

Fotografia original de Joa em FlickR - http://www.flickr.com/photos/joa/254749940/

 
À Instrumentalina está reservado um fim trágico, ela “morre” afundada no fundo de uma nora.
“… até que, escorrendo limos e panos podres, a bicicleta foi içada como um náufrago. Partida, convertida num monte de sucata, a triste parecia um ser humano de pescoço torcido sobre as ervas.”
A mando do avô que, por meia libra de oiro, convenceu as noras a fazer desaparecer a bicicleta.
 
No entanto, só o objecto se danifica, pois a “personagem” que está por detrás do objecto mantém-se até ao final e vive, para sempre, na memória de todos os outros intervenientes.
“No entanto, passados tantos anos, reunida, se pudesse ter-se mantido unificada pelo tempo, visitava-me rodando sobre o gelo como antigamente acontecia, nos campos de calor e poeira.”
“A porta de vidro permitia que dali onde me encontrava pudesse ver quem saia e quem entrava, sobretudo quem deixava o chapéu e a gabardina no bengaleiro. A bicicleta longínqua aparecia de perfil, mostrava o brilho dos seus raios girando ao Sol, e um luminosidade da Terra aparecia.”
Não “morreu” a personagem nem o seu simbolismo, mas apenas o instrumento. Nessa altura ela já não era necessária, pois o desejo da liberdade, maioridade e autonomia já tinha sido conquistado. O avô apenas precipitou o desenlace da história.
Publicado por Marta às 14:33

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