Quarta-feira, 28 de Fevereiro de 2007

O Espaço

O Espaço na "Instrumentalina"
O espaço neste conto divide-se em dois grandes cenários e que correspondem igualmente a dois momentos temporais e dois estádios do percurso das personagens. A pequena aldeia do Sul de Portugal (Valmares? – aldeia ficcional) e a cidade nas margens do lago Ontário (Toronto).

Fotografia original de ExpertTorontoGirl - http://www.flickr.com/photos/torontogirl/213299977/

Curiosamente (ou talvez não) os dois espaços estão limitados (ou ligados?) por uma linha de caminho de ferro. O tio Fernando desaparece da aldeia levado por um comboio…
«O meu tio tinha-me feito adeus, e depois o comboio antigo, como um canhão de Austerlitz, atroara na madrugada e levara-o cada vez mais de perfil, de braço levantado, para trás das árvores, por entre as quais a fila de carruagens se sumia» (11)
«O antigo dono da Instrumentalina tinha subido os três degraus do comboio, havia entrado, e depois, acenando, acenando sempre, desaparecera no perfil da carruagem. Assim desaparecera.» (39)
…mas vai reaparecer 30 anos depois no bar de um Hotel (Fairmont Royal Hotel) que fica encostado à grande estação de caminhos de ferro de Toronto.

Fotografia original de DeepFreeze http://www.flickr.com/photos/19068978@N00/144513990/

Terá sido apenas uma coincidência, ou pretende a autora criar a ideia que a separação entre a menina e o tio Fernando realmente nunca foi separação, mas que foi apenas o afastamento temporário de duas pessoas quem fazem uma viagem?
«… mas porque elas falavam de um afecto tão interrompido que eu havia tomado por amortalhado…» (40)
A cidade nas margens do lago Ontário
É o primeiro espaço referido no conto. É aqui que se inicia a narração e será a partir desta cidade que, em analepse, se recuperará o outro espaço do conto. Mais tarde, no final, a acção voltará a este mesmo espaço e aqui terminará.
Trata-se do bar do Royal York Hotel…
«O bar do Royal York Hotel, alimentado às sextas-feiras por bêbados distintos caindo sobre as mesas muito antes da meia-noite, revestido de papel escuro como musgo, lembrava o fundo dum tanque vazado e aquecido…»
… na cidade de Toronto, no Canadá.
«Aquela cidade estendida e empinada à beira do lago Ontário (…) ainda tinha palhetas de gelo.» (9-10)

Fotograifa original de JRawls - http://www.flickr.com/photos/london/4013252/

Trata-se de um espaço moderno, desenvolvido, inovador, que se opõe em quase tudo ao espaço da aldeia.
«… visitava-me rodando sobre o gelo como antigamente acontecia, nos campos de calor e de poeira.» (10)
«… ressuscitado numa cidade tão longe da terra da poeira…» (40)
 
A Aldeia ao sul
Fotografia original de Joaquim Castilho - http://www.flickr.com/photos/jcastilho/117696543/
É o espaço onde decorrerá o essencial do conto.
Trata-se de um espaço rústico, de uma aldeia a Sul.
«… uma nesga de campina ao sul do meu país…» (13)
Provavelmente esta aldeia será a mesma que a autora nomeará mais tarde n’”O Vale da Paixão” – Valmares – que sendo uma aldeia imaginada, inventada é decalcada sobre uma qualquer aldeia algarvia. Podia até ser Boliqueime!
Mas este espaço da “Aldeia ao sul” vai ainda dividir-se em dois outros espaços.
  • A casa da campina
  • O campo das margaridas
 
A casa da campina
Nesta aldeia há uma casa rural com a estrutura típica de uma grande casa agrícola:
«… duma casa grande demais para se viver.» (15)
Uma grande cozinha, centro do dia-a-dia:
«… a grafonola da nossa casa constituía o invento mais recente. Três fogões a petróleo enchendo a sopa de veneno eram a grande conquista das mulheres…» (12)
Um alpendre:
«Sentado à porta, no cadeirão, imóvel, debaixo da parreira, ficava o meu avô.» (12)
Quartos e corredor:
«Saí do quarto da abóbada sem sapatos. Coloquei-me diante do tio. Estávamos no corredor.» (38)
Mas esta casa é sombria, escura, como se augurando algo de mau ou como se assemelhasse a uma prisão.
«… tínhamos ocupado o quarto da abóbada, o que dava para trás, o mais sombrio.» (15)
«A sua imobilidade possuía alguma coisa de fatal que enchia a casa, conferindo-lhe uma sombra de prisão.» (18)
«Mas de que modo dizer isso ao tio Fernando, se ele me levava de volta exactamente para a sombra das parreiras, como se fosse um destino inevitável?» (25)
E para reforçar essa ideia de afastamento e de degredo, a casa era separada do resto da “campina” por um portão de ferro que fechava sobre si mesmo este espaço.
«A rua começava a afastar-se e o portão onde os primos permaneciam imóveis ia ficando definitivamente para trás.» (23)
«Regressar só seria bom se tivesse sido na direcção de um local donde nunca se visse a porta de chegada.» (25)
Esta casa rural vem, desde o início do conto, a perder importância e força económica, revelando um progressivo, mas imparável, declínio.
Este declínio económico, político e social (símbolo de todo um país – Portugal do final da década de 60) é absolutamente evidente na parte final do conto.
«De facto, descomandada, a casa ruía como baralho que se dispersasse, diminuindo as vendas, aumentando as compras, morrendo animais de tiro que não havia mais para substituir com a mesma qualidade. Os seirões de trigo tinham-se enchido de gorgulho, e nas redondezas as moagens fechavam como se estivessem combinadas. Os jornaleiros já não trabalhavam de sol a sol, e por isso o rendimento era escasso, além de que a maior parte deles também estava sucumbindo às miragens da partida.» (33)
O campo das margaridas

Fotografia original de Afribrasil - http://www.flickr.com/photos/afribrasil/150041470/

É a planície alentejana, o espaço aberto e sem limites, o cenário da felicidade, da liberdade e do encantamento.
Este espaço afasta-se da casa e é diferente do calor poeirento e sombrio da casa.
«Os campos planos passavam de um lado para o outro, devagar, desprendendo-se cada vez mais das redondezas da casa da campina, e o seu verde serôdio, perto do queimado, perdia-se de vista» (23-24)
O campo das margaridas é cheio de sol, de verde e de cor. É surpreendente na sua diversidade e no seu simbolismo.
«O cômoro que se elevava depois da depressão não era só verde, não. A seguir a umas ervas densas, a cor da relva dava lugar ao branco eo branco ao amarelo, pois encontrávamo-nos num extenso campo de surpreendentes margaridas.» (24)
E é também o símbolo da sabedoria, do conhecimento, da verdade. Só quem esteve naquele campo pode saber a verdade.
«Só que eu tinha-o acompanhado ao campo das margaridas, conhecia-o melhor, ou dispunha dum outro pressentimento deixado pela mágica das fotografias.» (37)
Publicado por caetana às 15:14

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Terça-feira, 27 de Fevereiro de 2007

As personagens - As crianças

A matilha

São muitas (oito mais a menina), são primas e irmãs e são um grupo mais ou menos organizado e uniforme. São um corpo único, correndo sem limites, semelhantes a uma matilha em caça.
«E correndo como uma matilha indomável, sem dono, sem obstáculo, existíamos nós, as crianças, irmãs e primas entre si.» (12)

Fotografia original de "Gottlieb2001" - http://www.flickr.com/photos/pcwhite/101223394/

«Levava-me para onde de novo seria dividido aos pedaços pela sofreguidão dos oito primos» (25)
ruidosa...
Faziam muito barulho.
«… e os nossos gritos de alegria partiam a tarde em duas metades…» (13)
à espera...
Sempre à espera do tio Fernando e da Instrumentalina…
De qualquer modo, quando o víamos regressar de novo, atrás das árvores, a luz renascia na tarde da campina.» (19)

Fotografia original de Katbrenke - http://www.flickr.com/photos/25992476@N00/207087241/

impiedosa...
Lutando entre si para ganhar o direito de acesso ao objecto de desejo.
«… e para todos era uma vitória colocar a mão na grelha ou apenas seguir de perto, durante meio minuto, o rasto que a bicicleta deitava na poeira. Ou não bastava, e por isso tornavam-se ruidosos.» (19-20)
Lutavam entre si para ganharem o direito de dar um volta sentados na grelha da “Instrumentalina”.
«As cenas da escolha do que seria contemplado com uma volta, sentado na grelha que naquele tempo as bicicletas de corrida ainda consentiam, roçavam o furor religioso. Batiam-se entre si, choravam, e era necessário recorrer a sortes ou fixar a vez, para que a desordem que se estabelecia no meio da estrada não se tornasse numa cena com amor e violência.» (20)
inocente...
Ao contrário da menina, os primos parecem ser apenas crianças, sem outra sensibilidade nem outras preocupações. E quando a propósito da visita das “duas mulheres irmãs” eles banqueteiam-se com bolos, despreocupados com o significado da sua conivência. Têm apenas a inconsciência e a inocência de crianças.
«Os primos comiam bolos nunca vistos.» (31)
A menina chega a pensar que foi algum deles o responsável pelo “afogamento” da bicicleta.
«… e todos os primos estavam à volta para o assistir, embora eu pessoalmente suspeitasse que entre eles um havia que possuía no bolso uma moeda de oiro. Contudo, estava longe de ser fácil decidir.» (34-35)

Fotografia original de OlivIreland - http://www.flickr.com/photos/74719059@N00/217573709/

fiel...
E na verdade, essa preocupação demonstrada pelas crianças em relação ao tio Fernando não era fictícia; era real e sincera. Porque nenhum deles o tinha traído.
«Mas o seu desgosto foi sobretudo intenso quando percebeu que as suas quatro cunhadas, dois dias antes, haviam recebido cada uma delas sua meia-libra de oiro.» (36)
Publicado por Mariana às 16:41

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As personagens - O Avô

 

Imagem original de "PlanetLove" - em FLickr - http://www.flickr.com/photos/planetlove/159677380/O Avó é o patriarca da família. É a voz de comando, o que controla, domina e determina o que todos os que o rodeiam devem fazer.
É um velho imóvel, incapaz de realizar as mais pequenas tarefas, mas que vai obrigando a que os outros cumpram os seus desejos.
«O avô falava mas não se erguia do assento nem para alcançar um púcaro de água.» (18)
 
Afirma a sua autoridade numa sociedade submissa onde ninguém é capaz (ou quer) pôr em causa a sua ascendência.
«E nesse ambiente de meninos e mulheres, exercendo o seu magistério de homem director, inválido, sentado na sua cadeira de imóvel, desesperava o meu avô.» (15)
Sente-se desesperado perante a sua invalidez e a falta de um sucessor que mantenha a sua linhagem autoritária, machista e materialista. Perante a ausência de todos os filhos varões, vê como uma única alternativa – como o menor dos males – o seu filho mais novo: o tio Fernando.
«A menos que chamasse o filho mais novo, aquele que depois para sua arrelia, haveria de riscar a poeira das estradas, a correr, a correr na Instrumentalina.» (15)
Quando chama o seu filho Fernando para lhe entregar os destinos da casa, enumera de forma hierárquica as suas preocupações e a sua ordenação de valores.
«Porque Deus quis que fosses tu o amparo do Pai, da sua saúde e dos seus haveres, bem como destas crianças e destas mulheres que os outros para aqui deixaram…» (16)
Primeiro está ele próprio, depois a sua saúde e os seus haveres. Os outros, os que restam depois dele, são enumerados no fim e quase como se tratassem de “acrescentos”, de “extras” que não sendo realmente importantes, seriam de proteger por compaixão.
E nesta ânsia de se proteger a si e aos seus possuídos (bens ou pessoas) não olha a meios para atingir os objectivos.
Mente:
«E sabes que se quer ir embora?» (27)
Tenta subornar:
«O Avô tinha retirado do interior do seu colete uma pataca de veludo e de dentro dela fizera sair uma pequena moeda cor de oiro, colocando-ma na mão – “É tua, se me quiseres ajudar, fazendo desaparecer a Instrumentalina”.» (27-28)

Imagem original de Joe Cool em FlickR - http://www.flickr.com/photos/fusebox/210469513/

Delineia planos (subornos) alternativos:
«Era verdadeiro então o pressentimento que me dominava de que aquelas mulheres vinham substituir o plano do desaparecimento da Instrumentalina.» (31)
Incapaz de ver a realidade e de perceber as mudanças que o mundo trazia, encontra um único culpado, e condena-o sem julgamento e sem piedade.
«Para o seu sogro comum, porém, só havia um culpado da vasta ruína humana que chegava – o seu filho Fernando, o indiferente a terras e mulheres, o prisioneiro da Instrumentalina.» (34)
E é também incapaz de discernir o simbolismo da “Instrumentalina”, convencendo-se que fazendo-a desaparecer, faria desaparecer do seu filho as ideias “revolucionárias”.
«Porque devemos impedir que ele se vá, fazendo-a desaparecer.» (28)
Imagem original de Ross Stuart Hendersom (Flickr) - http://www.flickr.com/photos/51501783@N00/319344188/O avô nunca chegou a ter a clarividência da menina, deixando-se guiar pela cegueira do seu ressentimento, do seu desespero, da sua impotência.
«Não era verdade que o avô me tinha dito que o desaparecimento da bicicleta poderia prendê-lo a casa? E como? Na minha ideia, a Instrumentalina em vez de o afastar ligava-o a nós como nenhum outro objecto. O raciocínio do avô parecia-me não ter lógica e no fundo da minha agitação, tudo se resumiria a uma vingança de pessoa ressentida. Pelo contrário, era preciso prendê-lo à estrada, devolvendo-lhe a Instrumentalina.» (35)
No final do conto, quando é descoberta a Instrumentalina no fundo da nora, o avô parece rendido, incapaz de continuar a lutar, indiferente já ao que o rodeava.
«… mas depois eu insisti e todos nos dirigimos para a nora, sob o olhar indiferente do meu avô.» (35)


O Avô
Publicado por Marta às 10:00

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Segunda-feira, 26 de Fevereiro de 2007

As personagens - A menina

A menina é a narradora. Decidimos chamar-lhe apenas “menina” porque não são fornecidas grandes informações sobre esta personagem. Aparece com algumas características óbvias: frágil, inteligente e arguta, submissa, “invisível”, eleita, fiel.
 

Foto original de Andersn Per  (FlickR) - http://www.flickr.com/photos/andersen_per/384714732/

Frágil
Sabemos que se trata de uma menina, a última (com a mãe e o irmão) a chegar à casa do avô.
«Eu tinha sido a última a chegar à casa da campina…» (20)
Era “penalizada” por ter sido a última.
«… havíamos sido os últimos a chegar, tínhamos ocupado o quarto da abóbada, o que dava para trás, o mais sombrio.» (15)
Sabemos também que era um dos elementos mais fracos da “matilha indomável”. E que essa fraqueza às vezes se devia às menores prestações físicas, (seria das mais novas?), ou a uma certa segregação de que era alvo por parte dos primos.
«Era verdade que não eu não corria tanto como os outros, mas se acaso corria, o efeito de correr, logo dessa vez, não era critério que prestasse. Inexplicavelmente, também o meu nome desaparecia das sortes que eram feitas com sementes e papéis, e fosse como fosse, por mérito ou acaso, raramente conseguia atingir o meu tio.» (21)
O facto é que esta menina perdia sistematicamente na luta com os primos pela conquista da atenção do tio e da Instrumentalina.
Inteligente e arguta
Todavia, perante este ar de injustiça e de ostracismo, a menina revelava-se suficientemente inteligente e ardilosa para conseguir atingir os seus objectivos. Ela vai aproveitar os episódios de segregação, para os transformar em vantagens na aproximação.
«Porém, devagar, no interior da esperança, eu ia inventando uma outra forma de me aproximar da Instrumentalina.
Era uma forma limitada. Esperava que o tio se sentasse à porta, debaixo das parreiras, e sendo por sistema relegada para a periferia do grupo, podia ir buscar, antes de todos os outros, os objectos de que necessitasse mal se manifestasse.» (21)
A inteligência e a argúcia demonstrada nestas estratégias de “sedução” vão ser depois claramente confirmadas no final do conto. A menina é talvez a única personagem que consegue perceber o que se passa, o que representa a bicicleta e o tio, e como lidar com a situação que lhe é presente. Ela percebe que a única coisa que impedira que o tio Fernando seguisse as pegadas dos irmãos era a Instrumentalina. Perdida a Instrumentalina era irremediável a perda do tio.
«Na minha ideia, a Instrumentalina em vez de o afastar ligava-o a nós como nenhum outro objecto. O raciocínio do avô parecia-me não ter lógica e no fundo da minha agitação, tudo se resumiria a uma vingança de pessoa ressentida. Pelo contrário, era preciso prendê-lo à estrada, devolvendo-lhe a Instrumentalina.» (35)
Mesmo que, como criança, não o saiba verbalizar, ela compreende o mundo que a rodeia ainda não saiba lidar com ele. Quase como uma sibila.
«Só que eu tinha-o acompanhado ao campo das margaridas, conhecia-o melhor, ou dispunha dum outro pressentimento deixado pela mágica das fotografias.» (37)

Fotografia origianl de Ziuzel (FlickR) - http://www.flickr.com/photos/ziuzel/43471427/

Submissa
Curiosamente aquela “limitada forma” de ganhar tio e bicicleta parece reflectir a postura das outras figuras femininas. Uma atitude de submissão, de espera, de subserviência.
«Sem dizer nada, como se fosse muda, procurava-lhe o pulôver antes que tivesse frio, arrumava-lhe as ferramentas antes que pedisse, e tendo percebido que apreciava lavar os pés antes do jantar, trazia-lhe a bacia com a toalha e o sabão. […] então eu esperava que ele terminasse a sua limpeza de crepúsculo, tomava-lhe a bacia, deitava fora a água, e estendia a toalha no arame.» (22)
Invisível
Esta submissão, este apagamento do “eu” vai tão longe que a menina, confrontada com a falta de um gesto de agradecimento por parte do tio, chega mesmo a convencer-se que seria invisível ao tio.
«Aliás, não era preciso eu esconder-me, pois a certa altura eu tinha sido tomada da certeza de que o meu tio Fernando, mesmo que se esforçasse e me quisesse recompensar, com uma palavra que fosse, não poderia fazê-lo, porque não me via. A minha dúvida consistia apenas em saber se lhe era opaca como a porta ou transparente como o ar. Pensava eu, depois de meus invisíveis gestos serviçais.» (22-23)
 
Eleita
Mas esta atitude de aniquilamento, que aliás é muito semelhante à atitude já demonstrada pelas outras figuras femininas do conto, viria a mostrar-se compensadora.
Ela foi a escolhida. A eleita.
«E então, tomando o seu boné e a sua Kodak especial, escolheu um de entre os seus sobrinhos, e entre eles, para surpresa de todos, o escolhido era eu.» (23)
E a menina virá a tornar-se a preferida, a confidente, a cúmplice do tio Fernando. Vai criar-se entre ambos uma intimidade emocional e afectiva por um lado:
«Aliás, as fotografias colhidas no campo das margaridas haveriam de me aproximar do tio duma forma singular […] e gostando delas, tinha acabado por colocá-las no seu arquivo pessoal.» (26)
Mas também uma intimidade física, quase sensual:
«Pude então ver que dormia de bruços, e suas costas nuas saídas do cobertor, musculadas como um escudo, resplendeciam na penumbra do quarto repleto de instrumentos.» (27)
De tal forma que a menina reconhece que “gosta muito do seu tio”. Gosta do tio e de tudo o que o completa e o prolonga: a máquina de escrever, a máquina de fotografar e a Instrumentalina.
«Sim, eu gostava do tio, e também das suas máquinas, a de escrever e a de fotografar, mas sobretudo da Instrumentalina.» (27)
E no final do conto, é só a ela que são revelados os dois momentos fundamentais da “libertação” do tio. Só ela assiste à sua partida, numa das passagens mais bonitas de todo o conto.
«Era de facto madrugada. O comboio apareceu com o seu olho grande, fazendo estremecer a linha da estação. O tio levava uma pequena mala e deu um abraço demorado ao seu amigo. Depois elevou-me nos seus braços de rapaz e apertou-me de encontro ao peito, durante um instante. Passou a mão pelos meus pés descalços. “Volto logo, miúda. Vou e volto. Logo, logo.”
Mas seria mentira, absoluta mentira o que o meu tio dizia.
O antigo dono da Instrumentalina tinha subido os três degraus do comboio, havia entrado, e depois, acenando, acenando sempre, desaparecera no perfil da carruagem. Assim desaparecera.» (39)
E só ela está presente no seu reaparecimento 30 anos depois.
«Ele ali estava. Devagar, um cavalheiro de meia idade atrás do vidro transparente retirava o seu abafo, dobrava-o, entregava-o com as luvas, e abrindo a porta, como quem acaba de correr numa bicicleta, poisava o seu olhar mediterrânico na minha mesa.
“Cresceste, miúda, cresceste. Mas a tua cara é ainda a mesma…”
Conseguiu por fim o tio dizer, duma só vez.» (41)
 

Fotografia original de ... (FlickR)

Fiel
Esta relação preferencial com o tio vai simultaneamente ser motivo para uma tentativa de suborno, mas também razão para a resistência a essa traição.
O avô escolhe a menina como a primeira opção para fazer “desaparecer” a Instrumentalina e é com ela que tem a “conversa envenenada” (28).
«O avô tinha retirado do interior do seu colete uma pataca de veludo e de dentro dela fizera sair uma pequena moeda cor de oiro, colocando-ma na mão – “É tua, se me quiseres ajudar, fazendo desaparecer a Instrumentalina!”» (27-28)
Mas estranhamente para o avô (e naturalmente para o leitor), a menina não aceitará aquele suborno porque, amando o seu tio, lhe seria fiel até ao fim.
«Fazer desaparecer a bicicleta do tio parecia-me uma monstruosidade semelhante a fazer adoecer ou matar o próprio tio.» (28)
«… uma alegria sem limites me invadiu, como se eu mesma agora fosse responsável pela felicidade que se vivia e tocava a todos igualmente. Não quero uma moeda de ouro, não quero uma moeda de ouro!» (29)
E é ela que irá descobrir, para o tio, os “restos mortais” da Instrumentalina:
«“Eu sei onde ela está!”
[…] A princípio o tio não tinha acreditado, mas depois eu insisti e todos nos dirigimos para a nora, sob o olhar indiferente do avô. Não me enganara.» (35)
Publicado por Mariana às 12:28

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Domingo, 25 de Fevereiro de 2007

As personagens - O tio Fernando

 

O mesmo trabalho depois de corrigido e melhorado:
 
Era o filho mais novo do avô. Ainda não tinha 20 anos.
«Nem sequer fez ainda 20 anos.» (37)
O único que não se tinha ausentado para longe. Era um jovem sonhador, despreocupado, amando acima de tudo a sua bicicleta de corrida, a sua Kodak de fole e sua a máquina de escrever. É o ídolo das crianças. Revela-se o oposto daquilo que o seu pai desejava que fosse.
 
Era a última esperança do seu pai.
«A menos que chamasse o filho mais novo, aquele que depois para sua arrelia, haveria de riscar a poeira das estradas, a correr, a correr na Instrumentalina.» (15)
É o eleito (por ser o único) para preservar o reino daquela casa rural. É o “escolhido”, mesmo que não seja o “desejado”. E é empurrado para uma função que não deseja e não sabe cumprir.
«Repara bem. Chegou a hora de mudares de vida. Olha à tua volta e o que vês? Crianças e mulheres. Ora se todos me abandonaram, menos tu, então a minha velhice pertence-te e esta casa é tua…» (15)
Mas na sua essência é um “bom vivant”, um sonhador, um artista amador.
«O meu tio, fotógrafo amador e corredor de bicicletas…» (16)
É o oposto completo do seu pai (o avô). É o amante da “poesis” enquanto o avô era o seguidor da “praxis”. É o irrequieto, o activo, o móvel, enquanto o avô era o parado, o inválido o imóvel.
«Mas não era a pessoa que o nosso avô tinha querido que viesse.» (16)
Foto orignal em FlickREsta oposição inconciliável entre as duas figuras masculinas ganha corpo na relação que estabelecem com as cadeiras. O tio Fernando nunca se sentava.
«Como se nunca sentasse, o tio Fernando ouvia distraído, montado na bicicleta…» (16)
O avô estava preso a uma cadeira.
«O avô falava mas não se erguia do assento nem para alcançar um púcaro de água.» (18)
O tio Fernando não se enquadrava com as exigências da direcção de uma casa agrícola…
«Os carros de animais partiam carregados de objectos e de homens, e ele, como se nada lhe pertencesse, saía antes ou depois, com o boné virado para trás, sentado na bicicleta corredora, estrada fora.» (16)
… fazendo prevalecer os cuidados com a sua bicicleta sobre as obrigações ou os cuidados comerciais.
«Quando partiam para locais onde não era possível chegar desse modo, recusava-se a sair, sob o pretexto de que descalibrava as rodas nas irregularidades do caminho.» (16-17)
E esta desadaptação, esta incompatibilidade entre a sua forma de ser e o que lhe era pedido é claramente realçada pelas três vezes que o tio revela não compreender a sua escolha para aquela missão.
«Eu, Pai, mas porquê eu?» (16)
«Mas porquê eu, meu Pai? Porquê» (16)
«Meu Deus, mas porquê eu, Pai? Porquê» (33)
Este tio que vivia agarrado à sua liberdade, aos seus sonhos, estranhamente, não se tinha ido embora para longe, como os seus irmãos. Mas corporizava essa evasão que lhe era inata nos muitos “instrumentos” que possuía. É muito curiosa e significativa a brevíssima imagem que temos do seu quarto.
«… resplandeciam na penumbra do seu quarto repleto de instrumentos.» (26-27)
Foto original em FlickREle era o ídolo das crianças. Diverti-as, mimava-as e fazia-as sonhar.
«Víamo-lo de longe, com o seu boné de riscas, seu suspensório traçado, as calças apanhadas ao lado por presilhas…» (13)
«E não contente com a velocidade, fazia piruetas, cavalinhos, andava de um só lado como em patim, criava pinos e simulava quedas das quais saía ileso como nos circos os acrobatas. Vendo-o em tão boa forma, o nosso delírio não tinha piedade por ninguém, nem tinha fim.» (34)
E dividia a existência da “matilha indomável” em duas partes opostas.
Uma parte que se adivinha mais triste, mais sombria, limitada nas brincadeiras e nos sonhos pelo espaço da “casa da campina” e do seu portão.
Outra parte, cheia de som, luz, alegria e sonho que durava enquanto ele estivesse junto das crianças.
«… e os nossos gritos partiam a tarde em duas metades substanciais como as de um fruto ­– Antes e depois da chegada do nosso querido tio.» (13)
«De qualquer modo, quando o víamos regressar de novo, atrás das árvores, a luz renascia na tarde a campina.» (19)
De tal forma que as crianças o amavam. Amavam-no a ele e a tudo o que nele simbolizava a liberdade, o sonho, a evasão daqueles “campos de calor e de poeira” (10).
«Amávamo-lo, disputávamo-lo, fazendo parte dele, como seu segundo corpo, a Instrumentalina» (19)
Quando a Instrumentalina desaparece, o tio fica imóvel, parado, como se desistisse da vida e não encontrasse outro motivo para continuar a respirar.
«O tio havia-se deitado no divã do corredor, de olhos abertos, sem pestanejar…» (34)
Mas a mágoa da perda do seu instrumento de liberdade é ainda suplantado pelo desgosto de se saber traído pelos seus.
«Mas o seu desgosto foi sobretudo intenso quando percebeu que as suas quatro cunhadas, dois dias antes, haviam recebido cada uma delas sua meia-libra de oiro.» (36)
E apesar de ainda ter vivido mais algum tempo na casa, imitando um apaziguamento que era apenas fictício e conveniente aos seus planos, acaba por desaparecer numa madrugada, acompanhado por um amigo e por aquela que o tinha compreendido e amado – a menina.
«Era de facto madrugada. O comboio apareceu com o seu olho grande, fazendo estremecer a linha da estação. O tio levava uma pequena mala e deu um abraço demorado ao seu amigo. Depois elevou-me nos seis braços de rapaz e apertou-me de concontro ao peito, durante um instante. Passaou a mão pelos meus pés descalços. “Volto logo, miúda. Vou e volto. Logo, logo.”» (39)
Após a sua partida, a memória daquele tio tinha-se idolatrado. E da mesma maneira que o desaparecimento da Instrumentalina não tinha sido capaz de terminar com o sonho de liberdade, também a ausência do tio não fora capaz de trazer o esquecimento. Antes pelo contrário, a ausência de notícias e o desconhecimento do seu percurso, mitificavam-no.
«O nosso tio fora-se transformando assim numa figura dispersa pela Terra como um espírito.» (39)
«Acaso o dono da Instrumentalina não teria sido um sonho destinado apenas a fazer crescer pessoas indefesas?» (40-41)
Mas é este tio que de tudo o que existiu alguma vez na casa da campina sobrevive (juntamente com a menina) a 30 anos e aparece agora como um cavalheiro de meia idade, triunfante sobre a vida.
«Ele ali estava. Devagar, um cavalheiro de meia idade atrás do vidro transparente retirava o seu abafo, dobrava-o, entregava-o com as luvas, e abrindo a porta, como quem acaba de correr numa bicicleta, poisava o seu olhar mediterrânico na minha mesa.» (41)


O tio Fernando #2
Publicado por Adriana às 14:05

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