O Espaço na "Instrumentalina"
O espaço neste conto divide-se em dois grandes cenários e que correspondem igualmente a dois momentos temporais e dois estádios do percurso das personagens. A pequena aldeia do Sul de Portugal (Valmares? – aldeia ficcional) e a cidade nas margens do lago Ontário (Toronto).

Curiosamente (ou talvez não) os dois espaços estão limitados (ou ligados?) por uma linha de caminho de ferro. O tio Fernando desaparece da aldeia levado por um comboio…
«O meu tio tinha-me feito adeus, e depois o comboio antigo, como um canhão de Austerlitz, atroara na madrugada e levara-o cada vez mais de perfil, de braço levantado, para trás das árvores, por entre as quais a fila de carruagens se sumia» (11)
«O antigo dono da Instrumentalina tinha subido os três degraus do comboio, havia entrado, e depois, acenando, acenando sempre, desaparecera no perfil da carruagem. Assim desaparecera.» (39)
…mas vai reaparecer 30 anos depois no bar de um Hotel (Fairmont Royal Hotel) que fica encostado à grande estação de caminhos de ferro de Toronto.

Terá sido apenas uma coincidência, ou pretende a autora criar a ideia que a separação entre a menina e o tio Fernando realmente nunca foi separação, mas que foi apenas o afastamento temporário de duas pessoas quem fazem uma viagem?
«… mas porque elas falavam de um afecto tão interrompido que eu havia tomado por amortalhado…» (40)
A cidade nas margens do lago Ontário
É o primeiro espaço referido no conto. É aqui que se inicia a narração e será a partir desta cidade que, em analepse, se recuperará o outro espaço do conto. Mais tarde, no final, a acção voltará a este mesmo espaço e aqui terminará.
Trata-se do bar do Royal York Hotel…
«O bar do Royal York Hotel, alimentado às sextas-feiras por bêbados distintos caindo sobre as mesas muito antes da meia-noite, revestido de papel escuro como musgo, lembrava o fundo dum tanque vazado e aquecido…»
… na cidade de Toronto, no Canadá.
«Aquela cidade estendida e empinada à beira do lago Ontário (…) ainda tinha palhetas de gelo.» (9-10)

Trata-se de um espaço moderno, desenvolvido, inovador, que se opõe em quase tudo ao espaço da aldeia.
«… visitava-me rodando sobre o gelo como antigamente acontecia, nos campos de calor e de poeira.» (10)
«… ressuscitado numa cidade tão longe da terra da poeira…» (40)
A Aldeia ao sul
É o espaço onde decorrerá o essencial do conto.
Trata-se de um espaço rústico, de uma aldeia a Sul.
«… uma nesga de campina ao sul do meu país…» (13)
Provavelmente esta aldeia será a mesma que a autora nomeará mais tarde n’”O Vale da Paixão” – Valmares – que sendo uma aldeia imaginada, inventada é decalcada sobre uma qualquer aldeia algarvia. Podia até ser Boliqueime!
Mas este espaço da “Aldeia ao sul” vai ainda dividir-se em dois outros espaços.
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A casa da campina
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O campo das margaridas
A casa da campina
Nesta aldeia há uma casa rural com a estrutura típica de uma grande casa agrícola:
«… duma casa grande demais para se viver.» (15)
Uma grande cozinha, centro do dia-a-dia:
«… a grafonola da nossa casa constituía o invento mais recente. Três fogões a petróleo enchendo a sopa de veneno eram a grande conquista das mulheres…» (12)
Um alpendre:
«Sentado à porta, no cadeirão, imóvel, debaixo da parreira, ficava o meu avô.» (12)
Quartos e corredor:
«Saí do quarto da abóbada sem sapatos. Coloquei-me diante do tio. Estávamos no corredor.» (38)
Mas esta casa é sombria, escura, como se augurando algo de mau ou como se assemelhasse a uma prisão.
«… tínhamos ocupado o quarto da abóbada, o que dava para trás, o mais sombrio.» (15)
«A sua imobilidade possuía alguma coisa de fatal que enchia a casa, conferindo-lhe uma sombra de prisão.» (18)
«Mas de que modo dizer isso ao tio Fernando, se ele me levava de volta exactamente para a sombra das parreiras, como se fosse um destino inevitável?» (25)
E para reforçar essa ideia de afastamento e de degredo, a casa era separada do resto da “campina” por um portão de ferro que fechava sobre si mesmo este espaço.
«A rua começava a afastar-se e o portão onde os primos permaneciam imóveis ia ficando definitivamente para trás.» (23)
«Regressar só seria bom se tivesse sido na direcção de um local donde nunca se visse a porta de chegada.» (25)
Esta casa rural vem, desde o início do conto, a perder importância e força económica, revelando um progressivo, mas imparável, declínio.
Este declínio económico, político e social (símbolo de todo um país – Portugal do final da década de 60) é absolutamente evidente na parte final do conto.
«De facto, descomandada, a casa ruía como baralho que se dispersasse, diminuindo as vendas, aumentando as compras, morrendo animais de tiro que não havia mais para substituir com a mesma qualidade. Os seirões de trigo tinham-se enchido de gorgulho, e nas redondezas as moagens fechavam como se estivessem combinadas. Os jornaleiros já não trabalhavam de sol a sol, e por isso o rendimento era escasso, além de que a maior parte deles também estava sucumbindo às miragens da partida.» (33)
O campo das margaridas

É a planície alentejana, o espaço aberto e sem limites, o cenário da felicidade, da liberdade e do encantamento.
Este espaço afasta-se da casa e é diferente do calor poeirento e sombrio da casa.
«Os campos planos passavam de um lado para o outro, devagar, desprendendo-se cada vez mais das redondezas da casa da campina, e o seu verde serôdio, perto do queimado, perdia-se de vista» (23-24)
O campo das margaridas é cheio de sol, de verde e de cor. É surpreendente na sua diversidade e no seu simbolismo.
«O cômoro que se elevava depois da depressão não era só verde, não. A seguir a umas ervas densas, a cor da relva dava lugar ao branco eo branco ao amarelo, pois encontrávamo-nos num extenso campo de surpreendentes margaridas.» (24)
E é também o símbolo da sabedoria, do conhecimento, da verdade. Só quem esteve naquele campo pode saber a verdade.
«Só que eu tinha-o acompanhado ao campo das margaridas, conhecia-o melhor, ou dispunha dum outro pressentimento deixado pela mágica das fotografias.» (37)