Sexta-feira, 23 de Fevereiro de 2007

As personagens - A Instrumentalina

A Instrumentalina - #1

Neste conto (A Instrumentalina) as personagens são poucas, em quantidade, no entanto, são todas elas muito ricas, em qualidade, nas emoções, nos sentimentos e nos ideais que transmitem. Escolhi, A Instrumentalina, por ser, não apenas um objecto – uma simples bicicleta de corrida – mas por se revelar, do meu ponto de vista, como a personagem principal da história e a que contém a maior simbologia em termos de mensagem.
 
A Instrumentalina
 
No conto, a Instrumentalina não é apenas uma bicicleta.
A Instrumentalina é um objecto que ganha a dimensão de uma personagem.
 
Tem nome:
“Tanto o meu tio, como a Instrumentalina e eu”.
 
É amada e odiada, como se de uma pessoa se tratasse.
 
É amada pelo tio:
“Fernando, o prisioneiro da Instrumentalina”
“Fazer desaparecer a bicicleta do tio parecia-me uma monstruosidade semelhante a fazer adoecer ou matar o próprio tio”
 
É, também, amada por todos os sobrinhos:
“As cenas da escolha do que seria contemplado com uma volta, sentado na grelha que naquele tempo as bicicletas de corrida ainda consentiam, roçava o furor religioso.”
 “… querendo ser cada um de nós a amparar a Instrumentalina até ao canto do quarto onde o objecto corredor passava a noite”.
 
É odiada pelo avô:
“Os gritos do nosso avô imóvel ouviam-se à distância, e por eles se percebia como odiava o velocípede. Também odiava a Kodak, com o seu fole, e a máquina de escrever onde o nosso tio de olhos fechados fazia questão de compor o nosso nome. Mas o seu ódio, o seu fundo rancor, ele reservava-o intacto para a bicicleta marca Deka, insultando-a em grandes gritos de «Instrumentalina». A princípio tinha-lhe chamado figa, e depois trambolho e oito do Inferno, para em seguida se fixar naquele nome estranho, parente degenerado de utensílio pelo qual nutria um despeito de ácido.» 
A Instrumentalina tinha o poder de unir ainda mais o tio à família «Na minha ideia, a Instrumentalina em vez de o afastar ligava-o a nós como nenhum outro objecto», apesar de nem o avô nem as mulheres o perceberem.
 
A Instrumentalina é também um símbolo. Um símbolo para todas as outras personagens que são instrumentos do sonho, da liberdade, do que fica mais além. O avô não percebeu que o «instrumento» representava a necessidade e a urgência, a vontade e o apelo de ser livre.
«Mas o nosso tio era diferente, pois podia fugir de tudo e todos, correndo pelas estradas, e por vezes, levando-nos consigo. Por isso éramos livres.»
“Quem uma vez percorreu os caminhos do Paraíso, sentado num transporte de delícia, jamais pode esquecer a imagem do objecto condutor.”
O importante não é a bicicleta, mas o que ela significa para as crianças, para o tio Fernando e para o avô.

Fotografia original de Joa em FlickR - http://www.flickr.com/photos/joa/254749940/

 
À Instrumentalina está reservado um fim trágico, ela “morre” afundada no fundo de uma nora.
“… até que, escorrendo limos e panos podres, a bicicleta foi içada como um náufrago. Partida, convertida num monte de sucata, a triste parecia um ser humano de pescoço torcido sobre as ervas.”
A mando do avô que, por meia libra de oiro, convenceu as noras a fazer desaparecer a bicicleta.
 
No entanto, só o objecto se danifica, pois a “personagem” que está por detrás do objecto mantém-se até ao final e vive, para sempre, na memória de todos os outros intervenientes.
“No entanto, passados tantos anos, reunida, se pudesse ter-se mantido unificada pelo tempo, visitava-me rodando sobre o gelo como antigamente acontecia, nos campos de calor e poeira.”
“A porta de vidro permitia que dali onde me encontrava pudesse ver quem saia e quem entrava, sobretudo quem deixava o chapéu e a gabardina no bengaleiro. A bicicleta longínqua aparecia de perfil, mostrava o brilho dos seus raios girando ao Sol, e um luminosidade da Terra aparecia.”
Não “morreu” a personagem nem o seu simbolismo, mas apenas o instrumento. Nessa altura ela já não era necessária, pois o desejo da liberdade, maioridade e autonomia já tinha sido conquistado. O avô apenas precipitou o desenlace da história.
Publicado por Marta às 14:33

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