Sexta-feira, 23 de Fevereiro de 2007

As personagens - A Instrumentalina

A Instrumentalina #2

Uma outra forma de caracterizar esta personagem...

Fotografia original de Mister Dillon

 
A Instrumentalina é uma bicicleta (a bicicleta do tio Fernando) e é o «transporte de delícia».
«Quem diria? Escondida no saco das reservas proibidas, havia anos e anos que não a soltava do seu lugar de abrigo, ainda que por vezes o seu selim, a sua roda pedaleira, ou a imagem caprina do seu retorcido guiador me aparecessem como coisas desgarradas. Era inevitável. Quem uma vez percorreu os caminhos do paraíso num transporte de delícia, jamais pode esquecer a imagem do objecto condutor.» (10)
Mais do que um objecto, a Instrumentalina é um símbolo. O símbolo da liberdade, do prazer, da autonomia, da autodeterminação das personagens. É o «objecto condutor» (10) do sonho.
«Mas o nosso tio era diferente, pois podia fugir de tudo e de todos, correndo pelas estradas, e por vezes levando-nos consigo. Por isso éramos livres. […] Amávamo-lo, disputávamo-lo, fazendo parte dele, como seu segundo corpo, a Instrumentalina.» (19)
Ela é o instrumento usado para conservar o sonho. E é por isso que tem o nome de “Instrumentalina” – porque é o instrumento!
«A princípio tinha-lhe chamado figa, e depois trambolho e oito do Inferno, para em seguida se fixar naquele nome estranho, parente degenerado de utensílio, pelo qual nutria um despeito de ácido.» (17)
E enquanto símbolo dessa liberdade ela é amada sobre todas as coisas
«… e esse tio amava acima de tudo a sua bicicleta de corrida.» (18)
Mas é também profundamente odiada.
«Mas o seu ódio, seu profundo rancor, ele o reservava intacto para a bicicleta marca Deka, insultando-a em grandes gritos de “Instrumentalina”.» (17)
«Porque devemos impedir que ele se vá, fazendo-a desaparecer.» (28)
E esta tentativa de fazer com que a bicicleta deixe de ser uma bicicleta acaba por se revelar muito interessante.
O avô, ao insultá-la com o nome “Instrumentalina”, tenta, no fundo, coisificá-la, torná-la “coisa” e retirar-lhe a dignidade de bicicleta. Ao deixar de ser uma bicicleta como as outras (um objecto útil, reconhecido) e ao ser tratada como “maldito instrumento”, o avô tenta rebaixar a aquela bicicleta ao mais vulgar, ao mais baixo degrau dos objectos manipulados pelos humanos.
«Retirem-me da vista esse maldito instrumento! Levem-me da vista a Instrumentaliiina!» (17)
Mas curiosamente, esse processo de retirar àquela bicicleta o “estatuto” de mera bicicleta vai revelar-se com resultados opostos junto das crianças. Para elas (como para o tio Fernando) aquela não é apenas uma bicicleta como as outras. É um objecto especial, uma “coisa” do reino do fantástico. E a bicicleta vai também ser coisificada pelas crianças, mas no sentido inverso. Elas vão atribuindo-lhe uma aura de magia que a faz deixar de ser uma bicicleta e a faz passar a ser mais do que uma bicicleta; passa a ser um objecto quase sagrado e venerado.
«… querendo ser cada um de nós a amparar a Instrumentalina até ao canto do quarto onde o objecto corredor passava a noite…» (17)
«Por ironia, a designação que o nosso avô lhe havia atribuído com chancela de ódio soava-nos a um nome da família, e gastávamo-lo de tanto o repetir.» (18)
Aliás, parece-nos que a Instrumentalina é, ela mesma, uma personagem do conto.
Aquela bicicleta tem nome próprio, é quase sempre referida pelo seu nome e o nome é sempre maiúsculado.
A Instrumentalina parece também ter vontade própria e capacidade de ser o sujeito de acções.
«A bicicleta longínqua aparecia de perfil, mostrava o brilho dos seus raios girando ao sol, e uma outra luminosidade da Terra aparecia.» (11)
«... a triste parecia um ser humano...» (36)
E é enquanto símbolo e personagem que esta bicicleta se intromete na história narrada e obriga por diversas vezes a acção a alterar o rumo previsto e pré-definido.
Talvez que um dos melhores exemplos seja o dia do rompimento do noivado entre o tio Fernando e a “rapariga sem anel”.
Numa tentativa desesperada de salvar a casa e os haveres, o avô “arranja” um casamento para o tio Fernando. O noivado arrasta-se penosamente, sem qualquer demonstração de interesse por parte do tio. A determinado momento, o pai da rapariga vem tomar satisfações quanto às intenções reais do “noivo”. E como se de uma outra mulher se tratasse, a Instrumentalina surge no cenário daquele acerto de responsabilidades, afastando definitivamente o tio Fernando da rival, como se fosse ela a responsável última pelo fracasso daquela empresa matrimonial.
«Ali estavam finalmente para ouvirem da boca do Fernando o que queria, se queria e quando queria. A sua filha mais velha era uma herdeira, não era um trapo. E se de facto haviam combinado para ele a doação de um triplo dote, existiam limites para a dignidade e a paciência. O tio, porém, nessa tarde, a braços com um arranjo na Instrumentalina, apareceu de mãos cheias de sebo como os mecânicos, completamente estranho ao estratagema.» (32-33)
Como se ela fosse a carcereira da única esperança de manutenção do estado das coisas.
«Para o seu sogro comum [o avô], porém, só havia um ser culpado da vasta ruína humana que chegava ­– seu filho Fernando, o indiferente a terras e mulheres, o prisioneiro da Instrumentalina.» (34)
Bicileta no fundo da nora
E esta "personagem-instrumento" vai conseguir sobreviver ao ataque último do avô que ordena (compra) o seu desaparecimento no fundo de uma nora. Mas, se por momentos, somos levados a acreditar que a "personagem morreu"...
«Partida, convertida num monte de sucata, a triste parecia um ser humano de pescoço torcido sobre as ervas.» (36)
logo nos apercebemos que a sua força, o seu simbolismo ultrapassa e permanece para além do tempo.
«No entanto, passados tantos anos, reunida, como se pudesse ter-se mantido unificada pelo tempo, visitava-me rodando sobre o gelo como antigamente acontecia, nos campos de calor e poeira.» (10)
Publicado por Marta às 14:47

Link do artigo | Comentar | Adicionar aos favoritos
|

Navegação

 

Equipa
Equipa
Equipa
A obra
Button5
Button6

Pesquisar neste blog

 

Maio 2007

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31

Arquivos

Maio 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Artigos recentes

Menção Honrosa - Santarém...

Finalmente...

O Simbolismo

Tradução do artigo da Ana...

Artigo de Ana Paula Ferre...

Cláudia Pazos Alonso fala...

Sinónimos de "bicicleta"

Nomes de bicicletas

Tarefas da 4ª semana

O Espaço

Contactos

Se:
gostou...
não gostou...
leu...
lhe foi útil...
acha incompleto...
quer colaborar...
encontrou erros...

Ou se apenas:
nos quer dar o aconchego
de uma palavra...


Mande-nos um mail
cliquando AQUI.

Ou para os endereços:
ana_lucia_o@sapo.pt
marta_21_marques7@sapo.pt
adriana_maria_5@sapo.pt
caetana_scp@sapo.pt
mfscorreia@sapo.pt
e já agora
jpvasc@sapo.pt

tags

lídia jorge(18)

bibliografia(17)

obra(16)

obras(11)

instrumentalina(10)

livros(10)

personagens(8)

biografia(7)

7a(6)

marta(5)

take5(5)

entrevista(4)

mulheres(3)

aldeia(2)

ana lúcia(2)

ana paula ferreira(2)

autora(2)

avô(2)

casa(2)

espaço(2)

todas as tags

Links

Não se atrase

Visitantes

"Instrumentalinas"

www.flickr.com
Mais fotografias de "instrumentalinas" no Flickr

Inquérito 1

Participar

Participe neste blog

Mais sobre nós

blogs SAPO

Notícias

subscrever feeds