Sexta-feira, 16 de Fevereiro de 2007

A Entrevista imaginada

Instituto Camões - http://www.instituto-camoes.pt/revista/sobreeq.htmO conto “A Instrumentalina” lê-se de uma vez só. Começa-se a acaba-se sem paragens pelo meio. E parece que foi escrito da mesma maneira. Como foi? Demorou muito a escrever este conto ou foi como o Fernando Pessoa, que numa noite de insónia escreveu uma série de poemas seguidos?

[Sorrisos]
Não, não foi bem como o Fernando Pessoa, mas também não foi muito diferente.
Às vezes as histórias habitam-nos muito antes de serem escritas. Andam cá dentro, crescem, compõem-se, organizam-se e vão-se tornando cada vez mais insistentes até que um dia, uma hora, têm forçosamente que sair.
Esta história d’ «A Instrumentalina» já andava a contorcer-se dentro de mim há algum tempo e numas férias de Carnaval (está agora a fazer anos) jorrou cá para fora.
Fui passar alguns dias com a minha mãe (a Boliqueime) e comecei a escrever. Sentei-me e as personagens, as ideias, os sentimentos começaram a ganhar corpo e o conto apareceu escrito ao fim de três dias.
Na verdade, foi escrito quase de seguida, sem grandes reescritas.
Sabiam que “Conto” é a ponta do remo, da vara que mergulha na água? “Conto” vem daí, vem da ponta do remo que é o suficiente para avançar, só se mete na água o suficiente para avançar. O conto, em geral, não precisa de grandes dissertações, precisa que a dissertação seja reduzida ao mínimo para poder avançar; isso é que faz o ritmo do conto.
Por isso não demorou muito tempo… mas também não foi numa madrugada!

Fotografia de Graça Sarsfield in Vozes e Olhares no Feminino, Edições Afrontamento, Porto 2001 - www.mulheres-ps20.ipp.pt/Lidia-Jorge.htmDisse que um “conto” é o “suficiente para avançar”. Ora há comentadores que sugerem que o «O Vale da Paixão» é uma ampliação d’«A Instrumentalina». É assim?

Talvez sim e talvez não.
“Talvez sim”, porque a temática – essa ideia de uma rapariga jovem à busca do amor, a oposição entre a opressão materialista e o sonho da liberdade – é comum, de forma muito nítida, nas duas obras. Além disso, a história daquela menina pareceu-me, desde o início, que tinha outras tonalidades, outras perspectivas, outra dimensão que não cabiam no conto e que seria importante explorar. Por isso, acho que não é abusivo dizer-se que o conto «A Instrumentalina» cresceu, modificou-se, alterou-se até se transformar no romance «O Vale da Paixão».
Mas por outro lado “talvez não”; porque se isso aconteceu, não foi nunca uma atitude consciente ou voluntária. Eu prefiro entender que são duas histórias diferentes, com elementos comuns, mas autónomas e com objectivos diversos. É claro que ambas se baseiam num mesmo ponto de partida, numa mesma preocupação elementar, numa mesma experiência emocional. Mas têm implicações diferentes.
Diria que «A Instrumentalina» é um suspiro e que o «Vale da Paixão» é um pensamento.

Fotografia de Daniel Mordzinski - www.arteseletras.org/destaque/lidia_jorge.html “Objectivos diversos”? Uma das questões que tínhamos para lhe por era qual a “moral” d’«A Instrumentalina». Mas vamos fazer-lhe a pergunta de outra maneira: Qual é o objectivo deste conto? Ou afinal, porque é que o escreveu?

Claramente prefiro que falem em “objectivo” ou “razão para…” à expressão “moral de…”.
Não tenho, nem nuca tive pretensões de pregar uma moral, nem os meus livros quiseram alguma vez mostrar o caminho que os outros devem seguir.
Eu escrevo com as duas mãos: com uma mão, procuro demonstrar que uma coisa está errada, ou a revolta contra alguma coisa; com a outra, procuro compor alguma coisa que tenha a ver com a beleza. E a falta de fraternidade e a humilhação é uma coisa que a minha mão esquerda está permanentemente a trazer para a escrita.
«A Instrumentalina» é um pouco um grito – mais um “suspiro”, como disse atrás  – contra esse sentimento de humilhação, de opressão e de traição entre pessoas que se cruzam no tempo e no espaço.
A literatura existe para falar desses laços complexos, para os quais não há palavras. Se houvesse palavras, não precisávamos de escrever os livros. Os livros servem para colocarmos em acção a complexidade dos sentimentos, das vozes e dos recuos. O mundo da relação humana é complexo e belo. Merece ser contemplado.
Não escrevo livros para catequizar ninguém, eu não acho que a literatura ou que os meus livros sirvam para dizer que ao mal opõe-se o bem. Eu não tenho a preocupação de dizer qual é o mal e qual é a receita.


Fotografia de Olivier Roller - http://olivier.roller.free.fr/jorgelidia.htmlMas então porque é que escreve?

O processo de escrita (e o da leitura) é uma espécie de meditação.
Escrevo e leio para me repensar e para reconhecer o que me constitui, enquanto indivíduo e enquanto membro de uma sociedade.
E reparem que disse “reconhecer” no sentido de “voltar a conhecer”, de procurar um segundo conhecimento, mais elaborado, mais reflectido, mais completo das realidades que vou conhecendo no imediatismo do dia-a-dia.
Além disso, a literatura serve para ao mal opor a beleza, dentro da beleza eu acho que o bem é uma parte ou que a beleza é uma parte do bem, estão misturados, mas eu não sei resolver. Se eu soubesse a chave do bem, eu era política, eu não escrevia, mas eu não tenho a chave do bem, eu penso ter algumas chaves, pequenas chaves, para a beleza e então são essas que eu utilizo e quando me perguntam porquê, qual é a intenção, é esta – é para ajudar que outros se espantem comigo e que pensem sobre isso com palavras que tenham a altura suficiente para, ao mesmo tempo, os provocar e não os magoar, que pensem sobre o mal, mas ajudados por algo que lhes dê um impulso para uma elevação.
Aquilo por que eu luto é por escrever obras que eu acho que, no silêncio da minha vida, são importantes porque são a verdade do momento, daquilo que eu quero dizer e eu acho que são as personagens que fazem falar as coisas da terra, no momento.

Uma das coisas que nos ficou da leitura do conto é que ele parecia mesmo um relato autobiográfico. Parecia que era a Lídia Jorge a contar-nos uma história, quase um segredo, da sua infância. Até que ponto é que a história daquela menina é a história da escritora?

Ora meninas… É muito importante que sejam capazes de distinguir o que é uma biografia (ou auto-biografia) do que é uma obra de ficção.
«A Instrumentalina» é um conto, é uma ficção e portanto aquela menina não sou eu, embora seja uma construção minha.

Fotografia de Olivier Roller - http://olivier.roller.free.fr/jorgelidia.htmlSim, mas encontrámos muitos aspectos comuns entre a biografia da autora e a vida daquela menina: a casa rural, a paisagem do Algarve, a ausência do pai, o predomínio das figuras femininas…

Sim, mas todas as acções pessoais são contaminadas (ou enriquecidas) pelas experiências históricas e individuais dos seus sujeitos. Ortega Y Gasset dizia “O homem é o homem e as suas circunstâncias”. Tudo o que somos e sentimos resulta também das nossas memórias e das nossas vivências passadas e presentes.
Não é possível separar-me em “parte”. Escreveria o mesmo se não tivesse a minha história, se não fosse mulher e se não me chamasse Lídia? Os meus livros falam de um mundo de que outros não saberiam falar.
Não rejeito (nem o poderia) que aquela história é também em parte a minha história. De facto o meu pai foi sempre um pai ausente porque era emigrante, e o meu universo infantil foi emoldurado por figuras femininas (da minha mãe e das minhas tias). É também verdade que aquela casa é construída “em cima” da nossa casa em Boliqueime. E o “campo de margaridas” de que se fala na obra era realmente um campo próximo de nossa casa que na Primavera se enchia de flores e para onde às vezes íamos brincar. Mas nunca tive um tio Fernando.
São pontos de referência, são sustentáculos reais que dizem que a história que estamos inventando não é falsa e que tem verosimilhança, que tem pontos de apoio. Mas esta personalidade é inventada, os percursos daquela família não coincidem com os percursos de nenhuma família real.

Fotografia de Olivier Roller - http://olivier.roller.free.fr/jorgelidia.htmlNa história, a “Instrumentalina” é muito mais do que uma bicicleta. É ao mesmo tempo uma personagem e um símbolo, não é? Afinal, quem é a Instrumentalina?

É isso mesmo que vocês disseram: um objecto que ganha a dimensão de uma personagem, porque tem nome e é amada e odiada como se de uma pessoa se tratasse.
E é também um símbolo. Um símbolo de todas as outras personagens (pessoas) que são instrumentos do sonho, da liberdade, do que fica além.
Como se aperceberam, o importante não é a bicicleta, mas o que ela significa para as crianças, para o tio Fernando e para o avô. Um pouco como a máquina de escrever e a máquina fotográfica.

E porque é que deu um fim tão trágico a essa “personagem”?

Trágico?

Fotografia de Olivier Roller - http://olivier.roller.free.fr/jorgelidia.htmlSim… afinal ela “morre” no fundo de uma nora. Acaba partida e sem brilho.

Se pensarmos bem, só o objecto se parte. A personagem que está por trás do objecto mantém-se até ao fim e perdura sobre todos os outros intervenientes.
[Pegando no livro…]
Logo no início do conto, a narradora diz-nos: «No entanto, passados tantos anos, reunida, como se pudesse ter-se mantido unificada pelo tempo, visitava-me [A instrumentalina] rodando sobre o gelo como antigamente acontecia, nos campos de calor e poeira.» e na página seguinte: «A porta de vidro permitia que dali onde me encontrava pudesse ver quem saía e quem entrava, sobretudo quem deixava o chapéu e a gabardine no bengaleiro. A bicicleta longínqua aparecia de perfil, mostrava o brilho dos seus raios girando ao sol, e uma outra luminosidade da Terra aparecia».
O que “morreu” não foi a personagem nem o seu simbolismo. Foi apenas o Instrumento usado porque nessa altura ele já não era preciso. O desejo de liberdade tinha conquistado já a maioridade, a sua autonomia. O que se passou foi que o avô nunca chegou a perceber que maior que o “instrumento” era a vontade, o apelo, a urgência de ir além e de ser livre. Por isso, quando deu ordem para fazer desaparecer a bicicleta, apenas precipitou o desenlace da história.

Página de José Carlos Abrantes - http://www.josecarlosabrantes.net/fupload/Lídia%20Jorge.jpgNo conto, aquela menina é impotente, frágil, silenciosa, invisível. Mas no fim, passados 30 anos, é com ela que o tio Fernando se encontra. É um prémio tardio?

Pode entender-se assim!
Mas na verdade a menina nunca foi nem impotente nem invisível. Teve, é certo, uma postura frágil e silenciosa, que se podia confundir com impotência e invisibilidade, mas no fundo o tio Fernando sempre soube que ela estava ali. Foi com ela que privou nos espaços, era ela que o ia acordar à intimidade do quarto, foi ela a escolhida para ir ao campo das margaridas e foi a ela que o tio confidenciou o segredo sobre “uma mulher divina”.
Prefiro ver esse encontro como um reencontro de afectos temporariamente interrompidos, mas que sempre permaneceram. Mais do que um prémio é um retomar de uma linha de vida, é o recomeçar a história.

16 - Literaturhaus Frankfurt - http://www.literaturhaus-frankfurt.de/images/Jorge%20Lidia.jpgConsegue escolher o livro ou os livros da sua vida?

É impossível escolher só um. Posso seleccionar três que me marcaram em diferentes fases da minha vida: «Guerra e Paz», de Tolstoi, tinha eu os meus 15 anos; «Nada» da catalã Carmen Laforet, durante o meu período de estudante universitária e, finalmente, «Orlando» de Virginia Wolf, já na minha idade adulta.

Publicado por caetana às 14:57

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