Segunda-feira, 5 de Março de 2007

Finalmente...

E finalmente chegámos ao fim...

Chegámos ao fim do concurso Sapo Challenge 2007, mas não chegámos ao fim do Blog "A Instrumentalina".

Percebemos, ao longo destas semanas, que afinal o conto de Lídia Jorge era muito mais bonito do que imaginámos inicialmente, constatámos que havia pouca informação sobre este conto disponível para quem pesquisar na web e verificámos que há muitos outros internautas interessados em nos ler e em consultar a informação que disponibilizámos.

Por isso é que só o concurso Sapo Challenge é que acabou. O nosso "blog" não vai acabar e temos já (apesar de fora de concurso) outros materiais para disponibilizar aqui.

Foi uma experiência que se tornou em paixão. Como se diz no conto:

"Quem uma vez percorreu os caminhos do paraíso, sentado num transporte de delícia, jamais pode esquecer a imagem do objecto condutor."

Hoje, para concluir, publicamos quatro (dos  5) vídeos que fizemos e que correspondem a excertos por nós escolhidos do conto.

A intenção?

Mostrar que quando nos deixamos envolver e mergulhar no conto, há pequenos bocadinhos de texto que se podem tornar em delícias, em iguarias, em verdadeiro prazer.

Tudo o que pretendemos é despertar em quem nos vir uma vontade de ler este conto.

Temos que deixar aqui expresso o nosso agradecimento ao "Cinema'scola" da ESSMO e um muito obrigado ao prof. José Morgado e ao nosso colega José Ricardo.

 


Vídeo 1

 

«Quem diria? Escondida no saco das reservas proibidas, havia anos e anos que não a soltava do seu lugar de abrigo, ainda que por vezes o seu selim, a sua roda pedaleira, ou a imagem caprina do seu retorcido guiador me aparecessem como coisas desgarradas. Era inevitável. Quem uma vez percorreu os caminhos do paraíso num transporte de delícia, jamais pode esquecer a imagem do objecto condutor.
[…]
Ora a Instrumentalina se me tinha levado até ao campo das margaridas, no dia em que meu tio Fernando me havia chamado Greta Garbo, ela mesma me tinha traído e amarrotado, e criado o meu primeiro desgosto. No entanto, passados tantos anos, reunida, como se pudesse ter-se mantido unificada pelo tempo, visitava-me rodando sobre o gelo como antigamente, nos campos de calor e de poeira.»
JORGE, Lídia, A Instrumentalina, Ed. D. Quixote, 1ª edição, 1992, pp. 10

 

 


 

Vídeo 2

 

 

[...]

 

Com as mãos agarradas à cintura dele, tombando para a direita e para a esquerda como sobre um cavalinho que voasse, corríamos e corríamos sem parar. Correndo, sentia as pernas do meu tio girarem, e a sua camisa encher de ar, à medida que corríamos. E a terra a mover-se e a passar. Mas até onde correríamos nós? Acaso poderíamos correr indefinidamente assim? Se não, porque não?”

 

JORGE, Lídia, A Instrumentalina, Ed. D. Quixote, 1ª edição, 1992, pp. 22


 

Vídeo 3

«O meu tio retirou a máquina fotográfica do seu estojo, fez experiências contra o sol, fechou os olhos, tapou os olhos com a pala do boné, andou às arrecuas, para os lados, ajoelhou, e depois finalmente, mandou-me que o olhasse.
“Mas antes colhe um ramo de margaridas!”
Colhi-as, fiz um ramo, olhei para ele contra o sol, de lado, sentada no meio das flores, de perto, de longe, com e sem chapéu, e quando cheia de soberba por me sentir rainha, olhei de três quartos, com a boca unida, cheia de silêncio, meu tio gritou.
“Isso, isso, não te mexas, Greta Garbo!”
E depois, meu tio, que só tinha doze chapas, disparou as seis que lhe restavam.»
JORGE, Lídia, A Instrumentalina, Ed. D. Quixote, 1ª edição, 1992, pp. 24-25

 


Vídeo 4

«Era de facto madrugada. O comboio apareceu com o seu olho grande, fazendo estremecer a linha da estação. O tio levava uma pequena mala e deu um abraço demorado ao seu amigo. Depois elevou-me nos seus braços de rapaz e apertou-me de encontro ao peito, durante um instante. Passou a mão pelos meus pés descalços. “Volto logo, miúda. Vou e volto. Logo, logo.”
Mas seria mentira, absoluta mentira o que o meu tio dizia.
O antigo dono da Instrumentalina tinha subido os três degraus do comboio, havia entrado, e depois, acenando, acenando sempre, desaparecera no perfil da carruagem. Assim desaparecera.»
JORGE, Lídia, A Instrumentalina, Ed. D. Quixote, 1ª edição, 1992, pp. 39

 


Vídeo 5

«Era a hora exacta, marcada no final das duas linhas deixadas por ele no cacifo, e a sala estava cheia de gente loira como palha, derretendo ao calor da lareira, a alegria contida pelo gelo. Uma coisa fria como se o meu coração se dirigisse não para um homem mas para um lago, empurrava-me a vista na direcção do bengaleiro. Preparava-me para um encontro singular como nunca havia imaginado ser possível. Ele ali estava. Devagar, um cavalheiro de meia idade atrás do vidro transparente retirava o seu abafo, dobrava-o, entregava-o com as luvas, e abrindo a porta, como quem acaba de correr numa bicicleta, poisava o seu olhar mediterrânico na minha mesa.
“Cresceste, miúda, cresceste. Mas a tua cara é ainda a mesma…”
Conseguiu por fim o tio dizer, duma só vez.»
JORGE, Lídia, A Instrumentalina, Ed. D. Quixote, 1ª edição, 1992, pp. 41

 

Publicado por Marta às 11:07

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2 comentários:
De weteam a 23 de Março de 2007 às 14:38
Saudações cordiais, caros colegas!!
Agradeço-vos desde já pelo comentário que deixaram no nosso blog! É sempre agradável ler críticas realmente bem fundamentadas.
Tenho a dizer que também o vosso blog é de grande qualidade (apesar de, infelizmente, ainda não ter tido oportunidade de o ter lido na íntegra...). Foram originais e, sinceramente, gostei dos vossos vídeos. Posto isto, tenho de concordar convosco - o vosso clã tem um dos melhores blogs do distrito de Santarém. Parabéns Adriana Silva, Ana Lúcia, Andreia Caetana , Marta Marques, Mariana Correia e a todos os que vos apoiaram! Obrigada também pela vossa sinceridade!

Sandra Duque Maurício,
wePod
De weteam a 23 de Março de 2007 às 15:14
Saudações cordiais, caros colegas!
Após o comentário que deixaram no nosso blog, não podia deixar de seguir a vossa sugestão e visitar (mais uma vez) a Instrumentalina.
Começo desde já por vos agradecer - é sempre bom ler críticas realmente bem fundamentadas (e sinceras).
Quanto ao vosso blog, tenho a dizer que gostei bastante da sua apresentação (o cabeçalho está excepcional). O blog parece ser de grande qualidade, mas infelizmente ainda não tive oportunidade de o ler na íntegra... (prometo que o farei). Por esta razão, não posso fazer uma verdadeira crítica. Mas gostei dos vossos vídeos - fizeram-nos de forma muito original!

Bom, tenho de concordar convosco - de facto, a competição no distrito de Santarém foi grande, dada a elevada participação e a elevada qualidade de vários blogs.

Assim, tenho de dar também os meus parabéns à Adriana Silva, à Ana Lúcia, à Andreia Caetana , à Marta Marques, à Mariana Correia e a todos os que vos apoiaram. Não tenho dúvidas que, na próxima edição do Sapo Challenge, continuarão a ser os nossos adversários primordiais.

Sandra Maurício,
wePod

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