Domingo, 4 de Março de 2007

O Simbolismo

Ao abrirmos o livro “A Instrumentalina” deparámo-nos com um brevíssima citação que nos levantou algumas dúvidas.
«Um conto breve faz um sonho longo»
A referência à brevidade do conto é óbvia. “A Instrumentalina” é um texto breve, de pouco mais de 30 páginas, que se lê de uma vez só.
Mas aquele “sonho longo” fez-nos algum mistério…
 
Mas depois de lermos todo o conto, e quando o discutimos em equipa, quando trocámos ideias e emoções sobre o que tínhamos lido, começámos a perceber que aquele flashback (a nossa professora de Português quer a toda a força que lhe chamemos “analepese”) tinha algo de sonho (de “onírico”, diz a professora…) e que para além de “saber” a sonho, parecia falar de um sonho, de um “sonho longo”.
 
As minhas colegas foram analisar as personagens, o tempo e o espaço, mas a mim calhou-me estudar o que havia de sonho n’ “A Instrumentalina” e o que havia de simbólico nesta história.
Na biblioteca, pedi o “Dicionário dos Símbolos” e fui à procura. Encontrei:
 
Bicicleta – A bicicleta aparece frequentemente nos sonhos do imaginário moderno. Evoca três características:
* meio de transporte movido pela pessoa que a usa, ao contrário dos outros veículos, que são movidos por uma força exterior. O esforço pessoal e individual afirma-se, com a exclusão de qualquer outra energia, para determinar o movimento para a frente;
* o equilíbrio é assegurado pelo movimento para a frente, exactamente como na evolução da vida exterior ou interior
* só uma única pessoa de cada vez pode montar nela. Esta pessoa faz, portanto, de cavaleiro solitário (a bicicleta de dois assentos é outra história)
Como o veículo simboliza a evolução em marcha, o sonhador monta no seu inconsciente e avança pelos seus próprio meios, em vez de se descontrolar por estagnação, neurose ou infantilismo. Pode contar consigo mesmo e assumir a sua independência. Assume a personalidade que lhe é própria, não estando subordinado a minguem para ir aonde quiser.
Nos sonhos a bicicleta raramente indica uma solidão psicológica ou real, por excesso de introversão, egocentrismo e individualismo que impeça a integração social: corresponde a uma necessidade normal de autonomia.
in CHEVALIER, Jean, GHEERBRANT, Jean, Dicionário dos Símbolos, Ed. Teorema, Lisboa, 1982
 

Imagem original de "mliebenberg" - http://www.flickr.com/photos/mliebenberg/202934077/

Parecia óbvio que aquela “Instrumentalina”, a bicicleta que tinha dado o nome ao conto, era uma das chaves da interpretação de todo o conto. E que se chamava “Instrumentalina” por ser o instrumento desse mesmo sonho, dessa vontade de seguir em frente ainda que sozinho e ainda à própria custa.
 
Mas foi só quando li o artigo de Ana Paula Ferreira (transcrito neste blog) e depois de ter conversado com a nossa professora de português e com a minha mãe (que me tem acompanhado desde o princípio nesta “aventura”) que o simbolismo deste conto ganhou sentido completo para mim.
 
É sobre isso que vou escrever.
 
O simbolismo do espaço.
O conto divide-se em dois espaços que correspondem a dois tempos.
 
A cidade de Toronto:
 
É o espaço da actualidade é o símbolo do progresso e da frieza racional, também de alguma decadência civilizacional mas apesar de tudo suficientemente transparente para deixar ver a Instrumentalina.
«Então, subitamente, aquela cidade estendida e empinada à beira do Lago Ontário […] ainda tinha palhetas de gelo.» (9-10)
«O bar do Royal York Hotel, alimentado às sextas-feiras por bêbados distintos caindo sobre as mesas muito antes da meia-noite […] mas não suficientemente opaco para não deixar que a Instrumentalina deslizasse sobre a estrada dum outro território. […] A porta de vidro permitia que dali […] pudesse ver quem saía e quem entrava.» (11)
Trata-se claramente de um espaço distinto e afastado da terra de calor e poeira.
«… e agora, ressuscitando numa cidade tão longe da terra da poeira…» (40)
 
As terras da campina:
 
Este é o espaço onde decorre a acção nuclear do conto. É uma planície não identificada, claramente rural, sobretudo campestre, que fica algures a Sul e que simboliza o estado de um todo um país.
«Completamente plana, essa nesga de campina ao sul do meu país onde a casa do meu avô se erguia…» (13)
E nestas terras da campina, distinguem-se por sua vez outros dois espaços que partilham a campina, têm fronteiras comuns, mas que são absolutamente opostas quer na descrição quer no simbolismo.
 
 
A casa do Avô:
 
Fotografia original de "FlyZipper" - http://www.flickr.com/photos/good_day/219333127/A casa do Avô é o símbolo do Portugal antes da revolução de 74. É um espaço sombrio, poeirento, cheio de venenos e asfixia, fechado da campina por um portão, habitado por traições e estratagemas de engano, imóvel, resistente às mudanças e é uma casa em absoluta decadência, sem futuro, sem esperança, sem sonho.
«… indiferente então à mudança que corria nos países e nas terras…» (12)
«Três fogões a petróleo enchendo a sopa de veneno… » (12)
«… tínhamos ocupado o quarto da abóboda, o que dava para trás, o mais sombrio. […] duma casa grande demais para se viver» (15)
«A sua imobilidade possuía alguma coisa de fatal que enchia a casa, conferindo-lhe uma sombra de prisão.» (18)
«Mas de que modo dizer isso ao tio Fernando, se ele me levava de volta exactamente para a sombra das parreiras, como se fosse um destino inevitável?» (25)
«De facto, descomandada, a casa ruía como baralho que se dispersasse, diminuindo as vendas, aumentando as compras, morrendo animais de tiro que não havia mais para substituir com a mesma qualidade. Os seirões de trigo tinham-se enchido de gorgulho, e nas redondezas as moagens fechavam como se estivessem combinadas. Os jornaleiros já não trabalhavam de sol a sol, e por isso o rendimento era escasso, além de que a maior parte deles também estava sucumbindo às miragens da partida.» (33)
Trata-se, claramente, da representação de Portugal subjugado pela ditadura do “Estado Novo”, oprimido, sem perspectivas de futuro e em clara decadência social e económica.
 
Por outro lado, ainda nessa “nesga de campina”, podemos encontrar o:
 
 
Campo das margaridas
 
Este espaço aberto, afastado da casa do avô, é o símbolo de um outro país, mais verde, com esperança, com diversidade, mas que aparece no conto apenas de forma transitória, efémera, quase escondido, conhecido apenas por alguns e trata-se de um espaço evidentemente inabitado e onde se pode permanecer apenas por alguns instantes.
«De repente, a terra plana ganhava um declive, uma mancha de verdura era mais intensa […]» (24)
«O cômoro que se elevava depois da depressão não era só verde, não. A seguir a umas ervas densas, a cor da relva dava lugar ao branco eo branco ao amarelo, pois encontrávamo-nos num extenso campo de surpreendentes margaridas.» (24)
«Até que se fez tarde no campo das flores. Partimos.» (25)
Este campo é o símbolo dos espaços dispersos e escondidos, onde se respirava a liberdade e o direito à diferença, e que existiam também no Portugal anterior a 1974. Ou então, o símbolo daquilo em que se desejava transformar o País “sombrio e poeirento”.
 
 

O simbolismo das personagens
 
As mulheres e as crianças
 
Tanto as mulheres como as crianças parecem aparecer sempre em grupo, não se distinguindo as individualidades. E têm em si algumas características que parecem simbolizar todo um povo oprimido por uma ditadura.
São obedientes, subservientes, submissas a uma figura mais velha, que não é paternal mas que é autoritária e ditatorial. E foram todas, crianças e mulheres, deixadas para trás por aqueles que partiram.
As mulheres apresentam ainda mais algumas características interessantes: à medida que o tempo vai passando, vão-se assemelhando cada vez mais ao velho ditador, tornando-se cada vez mais imóveis; apesar de aparentarem alguma alegria porque cantam e dançam, são profundamente tristes; finalmente, revelam-se traidoras.
Já as crianças, embora não sejam traidoras, são inconsequentes, são inócuas. Mesmo que admirem o tio e desejem tocar no sonho de liberdade e de beleza (a Instrumentalina) limitam-se a correr, a gritar e a brincar. Facilmente o seu silêncio é comprado por bolos e doces.
«…e na nossa cozinha, elas se curvavam perante eles, asfixiadas por cintos que as apertavam como cilhas.» (12)
«… percebo como elas eram seres parados, objectos encantados pelo tempo.» (14)
«À noite choravam junto das janelas» (14)
«E correndo como uma matilha indomável, sem dono, sem obstáculo, existíamos nós, as crianças, irmãs e primas entre si.» (12)
«Olha à tua volta e o que vês? Crianças e mulheres.» (15)
«… seus seios fossem pesos que as prendessem às cadeiras de cochim.» (18)
«… e para todos era uma vitória colocar a mão na grelha ou apenas seguir de perto, durante meio minuto, o rasto que a bicicleta deitava na poeira.« (19)
«Os primos comiam bolos nunca vistos.» (31)
«Mas o seu desgosto foi sobretudo intenso quando percebeu que as suas quatro cunhadas, dois dias antes, haviam recebido cada uma delas sua meia-libra de oiro.» (36)
Assim, parece-me que este grupo no seu conjunto simboliza o conjunto de um povo submetido e rendido a um governo ditador. Mulheres e crianças simbolizam aqueles que são oprimidos, que são aprisionados, que são mantidos debaixo de um estado que os controla e deles dispõe. E este povo não é capaz de mudar porque não sabe que é possível mudar, ou porque cada vez mais se adapta à situação e começa a partilhar dos mesmos princípios ou apenas porque o que quer que faça é irrelevante e é possível controlá-lo com música e bolos. Não eram os romanos que falavam já em “panem et circenses”?

Fotografia original de "Good_Day" - http://www.flickr.com/photos/good_day/219333127/

 
 
O tio Fernando
 
Claramente o tio Fernando é o sonhador, aquele que não tendo ainda partido, não se enquadra com o que o rodeia. É o amante da liberdade, o amante da beleza, o que, montado na sua bicicleta, consegue fugir ao controlo do avô.
É o oposto do ditador. É o livre e o que se quer livre. Mas que só consegue encontrar a sua liberdade fora e longe daquela sociedade.
«Mas o nosso tio era diferente, pois podia fugir de tudo e todos, correndo pelas estradas, e por vezes levando-nos consigo. Por isso éramos livres.» (18-19)
Ele simboliza todos os que no Portugal dos anos sessenta não se reviam na ditadura, não queriam ter nada a ver com aquele estado de coisas e que na maioria das vezes saíam do País e iam para o estrangeiro. Não me parece que ele seja o revolucionário, mas apenas aquele que defendia a revolução sem querer fazer parte dela.
 
O avô
Claramente, o avô é o símbolo do ditador e de todos os que desejavam perpetuar o estado das coisas. É imóvel, não se adapta nem evolui, intriguista, preocupado com os seus bens materiais acima de todas as coisas e capaz de mandar cometer atrocidades em nome da manutenção da “normalidade”.
«E nesse ambiente de meninos e mulheres, exercendo o seu magistério de homem director, inválido, sentado na sua cadeira de imóvel, desesperava o meu avô.» (15)
«Porque Deus quis que fosses tu o amparo do Pai, da sua saúde e dos seus haveres, bem como destas crianças e destas mulheres que os outros para aqui deixaram…» (16)
«Não era verdade que o avô me tinha dito que o desaparecimento da bicicleta poderia prendê-lo a casa? E como? Na minha ideia, a Instrumentalina em vez de o afastar ligava-o a nós como nenhum outro objecto. O raciocínio do avô parecia-me não ter lógica e no fundo da minha agitação, tudo se resumiria a uma vingança de pessoa ressentida. Pelo contrário, era preciso prendê-lo à estrada, devolvendo-lhe a Instrumentalina.» (35)
Este avô, símbolo da decrepitude, da decadência de um país e de um regime ditatorial é também símbolo da tacanhez, da incapacidade de compreender o que se passa à sua volta e incapaz de ler correctamente os sinais que se lhe apresentam.
É também curiosa a relação que este avô tem com a cadeira.
«O avô falava mas não se erguia do assento nem para alcançar um púcaro de água.» (18)
Seria esta cadeira o ponto de ligação entre aquele avô e António Salazar que por causa de uma queda de uma cadeira, fica inválido e acaba por morrer?
 

O simbolismo da Instrumentalina
Creio ser este o grande objecto simbólico do conto, sobretudo porque a bicicleta representa mais do que ela própria. Esta bicicleta é uma extensão do tio Fernando e representa o que de mais sonhador há nele.
Como se tivesse autonomia, vida própria, esta bicicleta não se limita a ser conduzida pelo tio Fernando. É ela quem o conduz muitas vezes, e é ela quem fascina os que alguma vez puderam tocar-lhe. A “Instrumentalina” parece ter vontade própria e definir ela mesma o trajecto de terceiros, como se mais do que um objecto, como se ela fosse uma ideia, uma ideologia, uma convicção. E todos serão afectados pela sua presença: seja o tio Fernando, seja a menina, sejam todos os outros que habitavam o espaço onde a bicicleta se movia.
E esta bicicleta que parece viver antes, depois e independentemente do tio Fernando é o símbolo da liberdade, do sonho, da evolução e da mudança num país que não o aceitava.

Fotografia progonal de Jekkyl - http://www.flickr.com/photos/jekkyl/300800502/

«Quem diria? Escondida no saco das reservas proibidas, havia anos e anos que não a soltava do seu lugar de abrigo, ainda que por vezes o seu selim, a sua roda pedaleira, ou a imagem caprina do seu retorcido guiador me aparecessem como coisas desgarradas. Era inevitável. Quem uma vez percorreu os caminhos do paraíso num transporte de delícia, jamais pode esquecer a imagem do objecto condutor.» (10)
«Mas o nosso tio era diferente, pois podia fugir de tudo e de todos, correndo pelas estradas, e por vezes levando-nos consigo. Por isso éramos livres. […] Amávamo-lo, disputávamo-lo, fazendo parte dele, como seu segundo corpo, a Instrumentalina.» (19)
E este simbolismo é tão mais forte, quanto é verdade que mesmo depois de supostamente assassinada (atirada para o fundo da nora) a bicicleta reaparecerá por si mesma, trinta anos mais tarde.
«A bicicleta longínqua aparecia de perfil, mostrava o brilho dos seus raios girando ao sol, e uma outra luminosidade da Terra aparecia.» (11)
Publicado por Adriana às 12:43

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