Segunda-feira, 26 de Fevereiro de 2007

As personagens - A menina

A menina é a narradora. Decidimos chamar-lhe apenas “menina” porque não são fornecidas grandes informações sobre esta personagem. Aparece com algumas características óbvias: frágil, inteligente e arguta, submissa, “invisível”, eleita, fiel.
 

Foto original de Andersn Per  (FlickR) - http://www.flickr.com/photos/andersen_per/384714732/

Frágil
Sabemos que se trata de uma menina, a última (com a mãe e o irmão) a chegar à casa do avô.
«Eu tinha sido a última a chegar à casa da campina…» (20)
Era “penalizada” por ter sido a última.
«… havíamos sido os últimos a chegar, tínhamos ocupado o quarto da abóbada, o que dava para trás, o mais sombrio.» (15)
Sabemos também que era um dos elementos mais fracos da “matilha indomável”. E que essa fraqueza às vezes se devia às menores prestações físicas, (seria das mais novas?), ou a uma certa segregação de que era alvo por parte dos primos.
«Era verdade que não eu não corria tanto como os outros, mas se acaso corria, o efeito de correr, logo dessa vez, não era critério que prestasse. Inexplicavelmente, também o meu nome desaparecia das sortes que eram feitas com sementes e papéis, e fosse como fosse, por mérito ou acaso, raramente conseguia atingir o meu tio.» (21)
O facto é que esta menina perdia sistematicamente na luta com os primos pela conquista da atenção do tio e da Instrumentalina.
Inteligente e arguta
Todavia, perante este ar de injustiça e de ostracismo, a menina revelava-se suficientemente inteligente e ardilosa para conseguir atingir os seus objectivos. Ela vai aproveitar os episódios de segregação, para os transformar em vantagens na aproximação.
«Porém, devagar, no interior da esperança, eu ia inventando uma outra forma de me aproximar da Instrumentalina.
Era uma forma limitada. Esperava que o tio se sentasse à porta, debaixo das parreiras, e sendo por sistema relegada para a periferia do grupo, podia ir buscar, antes de todos os outros, os objectos de que necessitasse mal se manifestasse.» (21)
A inteligência e a argúcia demonstrada nestas estratégias de “sedução” vão ser depois claramente confirmadas no final do conto. A menina é talvez a única personagem que consegue perceber o que se passa, o que representa a bicicleta e o tio, e como lidar com a situação que lhe é presente. Ela percebe que a única coisa que impedira que o tio Fernando seguisse as pegadas dos irmãos era a Instrumentalina. Perdida a Instrumentalina era irremediável a perda do tio.
«Na minha ideia, a Instrumentalina em vez de o afastar ligava-o a nós como nenhum outro objecto. O raciocínio do avô parecia-me não ter lógica e no fundo da minha agitação, tudo se resumiria a uma vingança de pessoa ressentida. Pelo contrário, era preciso prendê-lo à estrada, devolvendo-lhe a Instrumentalina.» (35)
Mesmo que, como criança, não o saiba verbalizar, ela compreende o mundo que a rodeia ainda não saiba lidar com ele. Quase como uma sibila.
«Só que eu tinha-o acompanhado ao campo das margaridas, conhecia-o melhor, ou dispunha dum outro pressentimento deixado pela mágica das fotografias.» (37)

Fotografia origianl de Ziuzel (FlickR) - http://www.flickr.com/photos/ziuzel/43471427/

Submissa
Curiosamente aquela “limitada forma” de ganhar tio e bicicleta parece reflectir a postura das outras figuras femininas. Uma atitude de submissão, de espera, de subserviência.
«Sem dizer nada, como se fosse muda, procurava-lhe o pulôver antes que tivesse frio, arrumava-lhe as ferramentas antes que pedisse, e tendo percebido que apreciava lavar os pés antes do jantar, trazia-lhe a bacia com a toalha e o sabão. […] então eu esperava que ele terminasse a sua limpeza de crepúsculo, tomava-lhe a bacia, deitava fora a água, e estendia a toalha no arame.» (22)
Invisível
Esta submissão, este apagamento do “eu” vai tão longe que a menina, confrontada com a falta de um gesto de agradecimento por parte do tio, chega mesmo a convencer-se que seria invisível ao tio.
«Aliás, não era preciso eu esconder-me, pois a certa altura eu tinha sido tomada da certeza de que o meu tio Fernando, mesmo que se esforçasse e me quisesse recompensar, com uma palavra que fosse, não poderia fazê-lo, porque não me via. A minha dúvida consistia apenas em saber se lhe era opaca como a porta ou transparente como o ar. Pensava eu, depois de meus invisíveis gestos serviçais.» (22-23)
 
Eleita
Mas esta atitude de aniquilamento, que aliás é muito semelhante à atitude já demonstrada pelas outras figuras femininas do conto, viria a mostrar-se compensadora.
Ela foi a escolhida. A eleita.
«E então, tomando o seu boné e a sua Kodak especial, escolheu um de entre os seus sobrinhos, e entre eles, para surpresa de todos, o escolhido era eu.» (23)
E a menina virá a tornar-se a preferida, a confidente, a cúmplice do tio Fernando. Vai criar-se entre ambos uma intimidade emocional e afectiva por um lado:
«Aliás, as fotografias colhidas no campo das margaridas haveriam de me aproximar do tio duma forma singular […] e gostando delas, tinha acabado por colocá-las no seu arquivo pessoal.» (26)
Mas também uma intimidade física, quase sensual:
«Pude então ver que dormia de bruços, e suas costas nuas saídas do cobertor, musculadas como um escudo, resplendeciam na penumbra do quarto repleto de instrumentos.» (27)
De tal forma que a menina reconhece que “gosta muito do seu tio”. Gosta do tio e de tudo o que o completa e o prolonga: a máquina de escrever, a máquina de fotografar e a Instrumentalina.
«Sim, eu gostava do tio, e também das suas máquinas, a de escrever e a de fotografar, mas sobretudo da Instrumentalina.» (27)
E no final do conto, é só a ela que são revelados os dois momentos fundamentais da “libertação” do tio. Só ela assiste à sua partida, numa das passagens mais bonitas de todo o conto.
«Era de facto madrugada. O comboio apareceu com o seu olho grande, fazendo estremecer a linha da estação. O tio levava uma pequena mala e deu um abraço demorado ao seu amigo. Depois elevou-me nos seus braços de rapaz e apertou-me de encontro ao peito, durante um instante. Passou a mão pelos meus pés descalços. “Volto logo, miúda. Vou e volto. Logo, logo.”
Mas seria mentira, absoluta mentira o que o meu tio dizia.
O antigo dono da Instrumentalina tinha subido os três degraus do comboio, havia entrado, e depois, acenando, acenando sempre, desaparecera no perfil da carruagem. Assim desaparecera.» (39)
E só ela está presente no seu reaparecimento 30 anos depois.
«Ele ali estava. Devagar, um cavalheiro de meia idade atrás do vidro transparente retirava o seu abafo, dobrava-o, entregava-o com as luvas, e abrindo a porta, como quem acaba de correr numa bicicleta, poisava o seu olhar mediterrânico na minha mesa.
“Cresceste, miúda, cresceste. Mas a tua cara é ainda a mesma…”
Conseguiu por fim o tio dizer, duma só vez.» (41)
 

Fotografia original de ... (FlickR)

Fiel
Esta relação preferencial com o tio vai simultaneamente ser motivo para uma tentativa de suborno, mas também razão para a resistência a essa traição.
O avô escolhe a menina como a primeira opção para fazer “desaparecer” a Instrumentalina e é com ela que tem a “conversa envenenada” (28).
«O avô tinha retirado do interior do seu colete uma pataca de veludo e de dentro dela fizera sair uma pequena moeda cor de oiro, colocando-ma na mão – “É tua, se me quiseres ajudar, fazendo desaparecer a Instrumentalina!”» (27-28)
Mas estranhamente para o avô (e naturalmente para o leitor), a menina não aceitará aquele suborno porque, amando o seu tio, lhe seria fiel até ao fim.
«Fazer desaparecer a bicicleta do tio parecia-me uma monstruosidade semelhante a fazer adoecer ou matar o próprio tio.» (28)
«… uma alegria sem limites me invadiu, como se eu mesma agora fosse responsável pela felicidade que se vivia e tocava a todos igualmente. Não quero uma moeda de ouro, não quero uma moeda de ouro!» (29)
E é ela que irá descobrir, para o tio, os “restos mortais” da Instrumentalina:
«“Eu sei onde ela está!”
[…] A princípio o tio não tinha acreditado, mas depois eu insisti e todos nos dirigimos para a nora, sob o olhar indiferente do avô. Não me enganara.» (35)
Publicado por Mariana às 12:28

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