Domingo, 25 de Fevereiro de 2007

As personagens - O tio Fernando

 

O mesmo trabalho depois de corrigido e melhorado:
 
Era o filho mais novo do avô. Ainda não tinha 20 anos.
«Nem sequer fez ainda 20 anos.» (37)
O único que não se tinha ausentado para longe. Era um jovem sonhador, despreocupado, amando acima de tudo a sua bicicleta de corrida, a sua Kodak de fole e sua a máquina de escrever. É o ídolo das crianças. Revela-se o oposto daquilo que o seu pai desejava que fosse.
 
Era a última esperança do seu pai.
«A menos que chamasse o filho mais novo, aquele que depois para sua arrelia, haveria de riscar a poeira das estradas, a correr, a correr na Instrumentalina.» (15)
É o eleito (por ser o único) para preservar o reino daquela casa rural. É o “escolhido”, mesmo que não seja o “desejado”. E é empurrado para uma função que não deseja e não sabe cumprir.
«Repara bem. Chegou a hora de mudares de vida. Olha à tua volta e o que vês? Crianças e mulheres. Ora se todos me abandonaram, menos tu, então a minha velhice pertence-te e esta casa é tua…» (15)
Mas na sua essência é um “bom vivant”, um sonhador, um artista amador.
«O meu tio, fotógrafo amador e corredor de bicicletas…» (16)
É o oposto completo do seu pai (o avô). É o amante da “poesis” enquanto o avô era o seguidor da “praxis”. É o irrequieto, o activo, o móvel, enquanto o avô era o parado, o inválido o imóvel.
«Mas não era a pessoa que o nosso avô tinha querido que viesse.» (16)
Foto orignal em FlickREsta oposição inconciliável entre as duas figuras masculinas ganha corpo na relação que estabelecem com as cadeiras. O tio Fernando nunca se sentava.
«Como se nunca sentasse, o tio Fernando ouvia distraído, montado na bicicleta…» (16)
O avô estava preso a uma cadeira.
«O avô falava mas não se erguia do assento nem para alcançar um púcaro de água.» (18)
O tio Fernando não se enquadrava com as exigências da direcção de uma casa agrícola…
«Os carros de animais partiam carregados de objectos e de homens, e ele, como se nada lhe pertencesse, saía antes ou depois, com o boné virado para trás, sentado na bicicleta corredora, estrada fora.» (16)
… fazendo prevalecer os cuidados com a sua bicicleta sobre as obrigações ou os cuidados comerciais.
«Quando partiam para locais onde não era possível chegar desse modo, recusava-se a sair, sob o pretexto de que descalibrava as rodas nas irregularidades do caminho.» (16-17)
E esta desadaptação, esta incompatibilidade entre a sua forma de ser e o que lhe era pedido é claramente realçada pelas três vezes que o tio revela não compreender a sua escolha para aquela missão.
«Eu, Pai, mas porquê eu?» (16)
«Mas porquê eu, meu Pai? Porquê» (16)
«Meu Deus, mas porquê eu, Pai? Porquê» (33)
Este tio que vivia agarrado à sua liberdade, aos seus sonhos, estranhamente, não se tinha ido embora para longe, como os seus irmãos. Mas corporizava essa evasão que lhe era inata nos muitos “instrumentos” que possuía. É muito curiosa e significativa a brevíssima imagem que temos do seu quarto.
«… resplandeciam na penumbra do seu quarto repleto de instrumentos.» (26-27)
Foto original em FlickREle era o ídolo das crianças. Diverti-as, mimava-as e fazia-as sonhar.
«Víamo-lo de longe, com o seu boné de riscas, seu suspensório traçado, as calças apanhadas ao lado por presilhas…» (13)
«E não contente com a velocidade, fazia piruetas, cavalinhos, andava de um só lado como em patim, criava pinos e simulava quedas das quais saía ileso como nos circos os acrobatas. Vendo-o em tão boa forma, o nosso delírio não tinha piedade por ninguém, nem tinha fim.» (34)
E dividia a existência da “matilha indomável” em duas partes opostas.
Uma parte que se adivinha mais triste, mais sombria, limitada nas brincadeiras e nos sonhos pelo espaço da “casa da campina” e do seu portão.
Outra parte, cheia de som, luz, alegria e sonho que durava enquanto ele estivesse junto das crianças.
«… e os nossos gritos partiam a tarde em duas metades substanciais como as de um fruto ­– Antes e depois da chegada do nosso querido tio.» (13)
«De qualquer modo, quando o víamos regressar de novo, atrás das árvores, a luz renascia na tarde a campina.» (19)
De tal forma que as crianças o amavam. Amavam-no a ele e a tudo o que nele simbolizava a liberdade, o sonho, a evasão daqueles “campos de calor e de poeira” (10).
«Amávamo-lo, disputávamo-lo, fazendo parte dele, como seu segundo corpo, a Instrumentalina» (19)
Quando a Instrumentalina desaparece, o tio fica imóvel, parado, como se desistisse da vida e não encontrasse outro motivo para continuar a respirar.
«O tio havia-se deitado no divã do corredor, de olhos abertos, sem pestanejar…» (34)
Mas a mágoa da perda do seu instrumento de liberdade é ainda suplantado pelo desgosto de se saber traído pelos seus.
«Mas o seu desgosto foi sobretudo intenso quando percebeu que as suas quatro cunhadas, dois dias antes, haviam recebido cada uma delas sua meia-libra de oiro.» (36)
E apesar de ainda ter vivido mais algum tempo na casa, imitando um apaziguamento que era apenas fictício e conveniente aos seus planos, acaba por desaparecer numa madrugada, acompanhado por um amigo e por aquela que o tinha compreendido e amado – a menina.
«Era de facto madrugada. O comboio apareceu com o seu olho grande, fazendo estremecer a linha da estação. O tio levava uma pequena mala e deu um abraço demorado ao seu amigo. Depois elevou-me nos seis braços de rapaz e apertou-me de concontro ao peito, durante um instante. Passaou a mão pelos meus pés descalços. “Volto logo, miúda. Vou e volto. Logo, logo.”» (39)
Após a sua partida, a memória daquele tio tinha-se idolatrado. E da mesma maneira que o desaparecimento da Instrumentalina não tinha sido capaz de terminar com o sonho de liberdade, também a ausência do tio não fora capaz de trazer o esquecimento. Antes pelo contrário, a ausência de notícias e o desconhecimento do seu percurso, mitificavam-no.
«O nosso tio fora-se transformando assim numa figura dispersa pela Terra como um espírito.» (39)
«Acaso o dono da Instrumentalina não teria sido um sonho destinado apenas a fazer crescer pessoas indefesas?» (40-41)
Mas é este tio que de tudo o que existiu alguma vez na casa da campina sobrevive (juntamente com a menina) a 30 anos e aparece agora como um cavalheiro de meia idade, triunfante sobre a vida.
«Ele ali estava. Devagar, um cavalheiro de meia idade atrás do vidro transparente retirava o seu abafo, dobrava-o, entregava-o com as luvas, e abrindo a porta, como quem acaba de correr numa bicicleta, poisava o seu olhar mediterrânico na minha mesa.» (41)


O tio Fernando #2
Publicado por Adriana às 14:05

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