Sábado, 24 de Fevereiro de 2007

As personagens - As mulheres

As figuras femininas #2

São quatro e apresentam como principais atributos: férteis, trabalhadoras como formigas, alegres, mas subjugadas, submissas, paradas no tempo, irrelevantes,

«Eram quatro férteis mulheres sozinhas, entre as quais a minha mãe, e trabalhavam desde o romper do sol com a força das formigas» (12)
A sua grande conquista são três fogões a petróleo (por oposição aos fogões a lenha).
«Três fogões a petróleo enchendo a sopa de veneno eram a grande conquista das mulheres» (12)
A grafonola de que se fala na mesma página não é uma conquista sua! Ou seja, parece que tudo o que elas conseguiram com as suas reivindicações foram mais objectos para o seu trabalho (os fogões). O objecto do lazer – a grafonola – parece existir independentemente delas.
Mas mesmo esses fogões, obrigavam-nas a curvarem-se perante eles. Como se a masculinidade dos objectos pudesse reflectir e reproduzir o tipo de relações que aquelas mulheres tinham com o mundo masculino.
 «elas se curvavam perante eles» (12)
Todavia são mulheres aparentemente alegres, que cantam, dançam, riem e parecem felizes.
«Elas cantavam. Ouviam a grafonola e retiravam as letras que elas mesmas recompunham […] formando dois pares, agarradas pelos ombros umas às outras, elas dançavam» (13/14)
Mesmo que logo de seguida as vejamos curvadas, subjugadas pelo seu trabalho. Como se não lhe fosse permitido manter essa alegria por muito tempo.
«Outras vezes, debruçadas sobre os panos cosiam e passajavam, como se as horas tivessem sido criadas para se aniquilarem sob os seus dedos.» (14)
Foto original em: http://www.flickr.com/photos/pasta/37556937/
E que aquela alegria aparente não era mais do que uma fachada, um auto-engano. No fundo, são mulheres tristes, que choram frequentemente.
«À noite choravam junto das janelas.» (14)
«Entretanto, as nossas mães suspiravam por seus maridos, sentido uma rauína muito mais vasta do que a familiar vinha a caminho como uma maré inevitável, e a sua infelicidade fazia-as esquecerem-se dos pães dentro do forno.» (33-34)
A própria narradora as classifica como “paradas no tempo”.
«… percebo agora como elas eram seres parados, objectos encantados pelo tempo» (14)
E continua dizendo que a parte feminina naquela casa estava “intacta”. E “intacta” quererá dizer, a nosso ver, se mantinha dentro do padrão definido por aquela sociedade para as figuras femininas: úteis e fúteis.
«A parte feminina naquela casa estava intacta, com os seus chilreios, seus amuos circulares, suas guerras de cozinha, seus filhos, suas roupas interiores escondidas no fundo das gavetas que não trocavam nunca. À noite choravam junto das janelas. […] Liam cartas. Guardavam cartas, escreviam cartas com as suas canetas primitivas. Os seus maridos, todos eles, tinham partido.» (14)
Não lhe é reconhecida capacidade de liderança, de decisão, de autonomia. São equiparadas a crianças.
«Olha à tua volta e o que vês? Crianças e mulheres.» (15)
À medida que o tempo vai passando, estas figuras femininas vão se tornando cada vez mais parecidas com o avô. Vão-se desinteressando das crianças, preocupando-se cada vez mais com o seu trabalho (mesmo que este seja irrelevante) e vão começando a ficar imóveis, presas às cadeiras.
«As mães continuavam a escrever cartas cada vez com mais palavras, e parecendo surdas aos nossos gritos, laboravam coisas miúdas sobre panos como se seus olhos existissem para descobrir entre os fios prazeres invisíveis, e seus seios fossem pesos que as prendessem às cadeiras de cochim.» (18)

Foto original em: http://www.flickr.com/photos/justbcuz/112479862/

E à medida que se vão assemelhando ao avô, começam a ficar cada vez menos importantes na narrativa, deixam de ter relevância e são referidas apenas para evidenciar o seu processo de identificação com o avô. Elas, por exemplo, dançam, convivem com as “duas mulheres irmãs” (29).
«As nossas mães abriram a grafonola, e em vez de dois, três pares de mulheres dançaram e cantaram debaixo do parreiral.» (31)
Até chegarem ao momento último de serem cúmplices no desaparecimento da Instrumentalina. São elas que vão executar aquilo que o avô não conseguia fazer pelas suas próprias mãos. Elas vão ser a extensão e o braço activo de tudo o que o avô representa.
«Mas o seu desgosto foi sobretudo intenso quando percebeu que as suas quatro cunhadas, dois dias antes, haviam recebido cada uma delas sua meia-libra de oiro.» (36)
Publicado por Ana Lúcia às 14:07

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